| Sobre
seu trabalho e sua trajetória
Minha trajetória teve início
com experimentações com desenhos. Em uma série
de desenhos a nanquim, ainda no curso da Embap, dei início
a uma investigação sobre as formas orgânicas,
que por vezes lembram o interior do corpo humano. Sempre me interessei
pelo gesto mais solto e desprendido, uma mistura de linhas e aguadas,
que ao mesmo tempo constroem uma imagem forte e de cores marcantes
como o vermelho e o negro. Na gravura, descobri que tais linhas
poderiam ter mais força, e combinadas ao acaso proveniente
da técnica, tornariam-se mais ricas em conteúdo
e forma.
Meu interesse nesta época esteve voltado para a ponta seca
sobre o metal, pois gostava do atrito com a matéria e o
modo de como o desenho se comportava, um misto de resistência
e entrega, trazendo linhas fortes e "aveludadas".
Com a necessidade de acrescentar matéria e construir áreas
mais chapadas nos desenhos, comecei a trabalhar com a técnica
do carborundum - um pó de ferro que colado à placa
faz o papel de criar texturas e relevos - a qual permitiu grandes
possibilidades para a construção das imagens. Hoje
minhas matrizes em cobre são quase em sua maioria em água-tinta,
carborundum e ponta seca.
As imagens da Série Vermelha (A Fuga, O outro, etc) são
desenhos construídos com linhas que lembram formas orgânicas,
como se estivéssemos olhando para o interior de um corpo.
Ao mesmo tempo não possuem nenhum comprometimento com a
ciência e a fisiologia, simplesmente são imagens
que remetem a um organismo vivo, mas que podem estar em qualquer
lugar, não necessariamente presas dentro de um corpo humano
e sim convivendo num espaço imaginário e fantástico.
As formas que desenho muitas vezes passam a idéia de fragmentos
que desejam se tornar novamente algo inteiro, buscam uma forma
de interligar-se. Interesso-me também pelo aspecto tátil
das imagens, pela textura e cores vibrantes. Essas gravuras sempre
abrem um campo imenso de interpretações, o qual
acho muito interessante.
A gravura traz consigo a possibilidade de deixar um registro,
como se estivéssemos fabricando memórias e compartilhando-as
com as pessoas. Hoje tenho outros interesses, entre eles o de
trabalhar a gravura junto com a fotografia. Parece que tudo se
divide em duas etapas até o momento: a de dentro para fora
e a de fora para dentro.
Minhas gravuras atuais são quase
"fotogravuras", feitas a partir da serigrafia sobre
o metal, com imagens apropriadas de álbuns de família,
emprestadas de amigos, encontradas por acaso, etc. Sempre me interessei
por estas imagens prontas, às vezes anônimas, pois
parecem pedir para sair de dentro da caixa e serem transformadas,
mostradas.
Tais fotos são trabalhadas em computador,
onde as transformo em imagens mais sintéticas, eliminando
meios tons e deixando-as com aspecto mais denso. As imagens antigas
e muitas vezes até apagadas e rasgadas acabam ficando com
aparência de imagens "mexidas" porém vigorosas,
ou seja, deixam de ser arquivo e lembrança para se tornarem
parte de um novo registro. É como se fosse possível
regravar a memória, refazê-la. Além de mexer
nas imagens digitalmente, uso a ponta seca para fazer interferências,
continuo a usar a água-tinta e o carborundum.
O ato de tirar de uma foto de seu lugar
e colocá-a em outro, mudando sua condição
e seu objetivo, é uma espécie de deslocamento, o
qual me interessa muito. Uma foto que estava esquecida em algum
lugar, passa a ter um registro permanente no universo da gravura.
Durante toda a minha vida tive uma relação estreita
com a impressão. Antes mesmo de pensar em ser artista plástica
a impressão já fazia parte de meu cotidiano, pois
trabalhei muito tempo com artes gráficas na área
de comunicação. Por este motivo passei a usar as
possibilidades deste mundo gráfico como caminho e matéria-prima
para a produção de meus trabalhos. Já fiz
algumas obras em impressão digital, off-set, impressão
termográfica, entre outros.
Pretendo continuar uma investigação
em outros meios, como impressão holográfica e intervenções
urbanas como o outdoor. A imagem impressa é algo fascinante.
Ela tem o poder de dar credibilidade a tudo, mesmo quando a imagem
não merece crédito.
O artista pode entrar em vários
universos através da imagem impressa, pode criar e expor
suas idéias em espaços não-convencionais,
pode unir diversas linguagens em uma só, pode chegar a
vários lugares.
As obras feitas em impressão
digital como Encontro com F. e Ausência de R., foram também
manipuladas a partir de fotografias, desta vez tiradas por mim
e não apropriadas. Procuro trabalhar com imagens de pessoas
que conheço e que geralmente são do meu círculo
familiar ou de amizade. Gosto da verdade que contém na
vida destas pessoas e da possibilidade de falar de coisas que
realmente condizem com a minha poética e com os sentimentos
e questões do homem contemporâneo.
Nestas duas obras novamente
aparece a interferência do vermelho, sempre presente na
maioria das minhas composições. Obviamente não
é decorativo e sim simbólico, tem uma significação
especial, como se desse destaque à natureza íntima
e viva das coisas ali representadas.
Tais imagens buscam uma reflexão do ser humano em seu próprio
universo, tendo como ponto de partida sua própria visão
de mundo, sua imagem como espelho e motivação para
um encontro com suas dúvidas e inquietações.
Hoje procuro usar a gravura também em outros suportes,
diferentes do papel, a fim de que ela passeie por outros espaços
e traga novos significados para objetos do cotidiano, como livros,
cadernos de anotações, roupas, etc. Me interesso
pela realidade do dia-a-dia das pessoas, tanto pelo frenesi como
também pela estagnação em que algumas se
encontram, pelas histórias que contam e que às vezes
escondem. Tento perceber como posso usar essas coisas em meu fazer
artístico.
Em uma de minhas obras mais
atuais, intitulada Lágrimas de Cebola, utilizo sete panos
de prato para imprimir fotografias apropriadas de um álbum
de família de uma amiga, uma mulher comum, dona-de-casa,
mãe de família. Por meio da impressão termográfica
- a qual permite imprimir em tecidos por meio de uma película
impressa digitalmente e que depois é transferida para o
pano em uma prensa quente - construí uma instalação
onde os panos de prato ficam suspensos em uma linha, com uma foto
impressa em cada um deles. É como se o objeto e a vida
de alguém tão comum pudesse se transformar em objeto
de arte e se deslocar até o espectador, adquirindo outros
significados e gerando reflexões.
Acredito que agora é por este fio condutor que minha obra
vai caminhar, continuando a usar a gravura, deslocando histórias
e invadindo espaços, até que outra indagação
venha a surgir.
Técnicas que utiliza em seus
trabalhos:
Gravura em metal, serigrafia, fotografia,
desenho, manipulação de imagens, impressões
em diversas técnicas como xerox, off-set, plotagens, termografia,
etc.
|