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Fonte para conduítes
esmalte acetinado sobre MDF
125 x 125 cm. 2003
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Grampo de Antônio Ka
2004
Fotografia
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Esfera
em fase
2006
esmalte fosco e brilhante sobre MDF
183 x 171 cm
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Máquina para destruir plástico
bolha
2001
mesa de madeira, cilindro de massas, bobinas de plástico
bolha
150x160x234 cm
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Trajetória
em 137 graus
2001
madeira, tecido, hastes de aço e bolas de bilhar
140x50 cm (cada placa)
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Tacos - latão e alumínio
2002
tacos de bilhar confeccionados em latão e alumínio
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Filhote
2004-2005
esmalte fosco sobre estrutura em madeira e mdf
130 x 130 x 7 cm
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Filhote
2004-2005
esmalte fosco sobre estrutura em madeira e mdf
130 x 130 x 7 cm
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Postura para Akira
2006
fotografia
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Tacos - borracha
2002
taco de bilhar confeccionado em borracha
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Tacos - borracha
2002
taco de bilhar confeccionado em borracha
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Campo
2005
esmalte fosco sobre MDF
174 x 160 cm
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Situação para esferas
quentes
2006
esmalte fosco e brilhante sobre MDF
148 x 150 cm
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A PINTURA DA
IMAGEM PICTÓRICA
É importante dizer: Tony Camargo
não é um pintor, mas um artista que pinta. Daí,
portanto, a irreverência e por isso mesmo a leveza com que
se movimenta diante do peso da tradição pictórica.
Partindo de um lugar ambíguo ou indefinido de enunciação,
a pintura de Tony, vemos logo, tem evidente urgência pelo
presente, e como tal vem se mostrando basicamente refratária
a qualquer dicotomia enrijecida pelos tempos. Por "dicotomia
enrijecida", para esclarecer, penso, por exemplo, em todo
sistema de oposições que, independente dos termos
usados, trata "signo" e "coisa" - ou no nosso
caso, "imagem" e "pintura moderna" - como
opostos irreconciliáveis, como se a escolha de um incluísse
necessariamente a impossibilidade do outro. Não se trata,
portanto, de optar entre elementos já repertoriados, ou
seja, de optar ainda hoje entre, de um lado, o caráter
evocativo e virtual das imagens técnicas, e de outro, a
pretensa opacidade material dos objetos no mundo, da tautologia
minimalista ao anteparo de Tassinari. A questão, hoje,
como vejo, é de outra natureza e talvez se resuma à
seguinte pergunta: como é possível, poeticamente,
fazer ver os termos desta aporia sem no entanto confundir-se com
eles? A resposta de Tony Camargo, passando longe da eloqüência
das decisões históricas, é por isso mesmo
válida e segue um percurso cuidadoso de operações.
São três séries de reações.
Num primeiro movimento, diante das transparências midiáticas
e do fluxo informativo da sociedade contemporânea, o artista
reage, eu diria, por reflexo: criando opacidades, evocando a tradição
e buscando o controle dos seus próprios meios de produção.
Numa palavra: ele pinta, ou melhor, acrescenta um objeto ao universo
da cultura material. Mas Tony percebe: em si mesma a resposta
é romântica e tende ao sublime, no mínimo
à exacerbação do gesto, da pincelada e adjacências.
Numa segunda reação, o artista se desvia de novo
e faz, na seqüência, pinturas-de-imagens, crendo agora
que o imageado de amplo repertório, a fatura impessoal
e a inteligência da máquina sejam suficientes para
afastar os fantasmas, sempre solícitos, da "expressão",
do "virtuosismo" e da "aura". A estratégia,
contudo - o artista percebe novamente - é tipicamente pop
e já se tornou ela mesma previsível, sobretudo depois
do exigente mercado de ironias de Jeff Koons e sua ácida
abordagem metapop. Reagindo, então, uma terceira e decisiva
vez, Tony se desvia da obscenidade crassa do kitsch para assim
encontrar, finalmente, um caminho, que bem pode ser o seu: não
mais o ready-made da imagem de massa nem mesmo a mera atualidade
das coisas, mas a apropriação pictórica -
note-se - de imagens-de-pintura, o que não é pouco.
Ainda não mencionei, mas não só as pinturas
de Tony Camargo são projeções em escala pictórica
de imagens digitais feitas pelo artista, como as próprias
imagens criadas nascem da possibilidade de dialogar com o registro
imagético, quando não iconográfico, da história
da pintura. O resultado, vemos de perto, não são
"pinturas pictóricas", para usar uma expressão
feliz de Lorenzo Mammì, mas sim, se me permitem, "pinturas
de imagens pictóricas", ou seja, pinturas que nos
impedem, até segunda ordem, a fixidez do olhar, seja em
termos lógicos ou perceptivos. Afinal, como ocorrências
visuais, estas obras não definem distâncias nem lugares:
elas buscam o choque, deliberadamente ótico, entre a arte
e o mundo - ou para citar exemplos concretos, entre a precisão
formal de um Josef Albers e as limitações de um
software simples como o Paint. Tony, em resumo, cria palcos improváveis,
no sentido de que não se pode prová-los - testá-los
e demonstrá-los - como realidade única. O rigor,
aqui, obviamente, é um dado, pois não há
resquício das diagonais neoconcretas e nem dos apelos cromáticos
de um Ellsworth Kelly, assim como não há um só
desvio das simetrias laterais, espelhadas, e nem uma única
sugestão de simetrias totais, centralizadas, estas tão
previsíveis quando se trata de lidar com círculos
- sejam eles esferas, escotilhas ou campos de cor. Mas o rigor,
convenhamos, e como em Peter Halley, é também ironia,
desencanto e desapego diante de qualquer positividade utópica
ou geometria progressista. Entre paisagens possíveis e
objetos polissêmicos há, por certo, nestas pinturas,
uma alternância de espaços - mas uma alternância,
eu diria, que só se "apanha" no lirismo dos pequenos
encontros, na sutileza das "planaridades" verticais
ou na evocação "profunda", imaginária,
dos seus horizontes de céus claros.
Artur Freitas é historiador da arte,
doutorando pela UFPR e professor das Pós-Graduações
em História da Arte da EMBAP e da FAP, ambas em Curitiba.
arturfreitas@bol.com.br
PLANOS, PINTURAS E LUGARES: TONY CAMARGO
Curitiba, novembro de 2005
Artur Freitas*
Certa vez, no Instituto Goethe, espantaram-me as projeções
das planopinturas de Tony Camargo - um insólito e variado
conjunto de imagens digitais. Já disse isso ao artista
outra vez e torno a me repetir: espantaram-me. Toda aquela assepsia
digital, aquela imensa "facilidade", quase gratuita,
despretensiosa, aquelas imagens econômicas, janelas imaginárias,
planas, rasas, inteligentemente banais e despudoradamente midiáticas
- aquilo tudo, eu pensei, simplesmente não tinha lugar.
Não tem lugar. São simples "imagens",
ou seja, fenômenos visuais sem corpo nem densidade. "Planopinturas"
- Tony nos disse -, e de fato: há 40 anos a pop entendeu
que a mais kitsch das imagens publicitárias é mais
"plana" - literalmente plana - que qualquer pintura
de Pollock. E para ter "lugar" no mundo, sobretudo nesse
micro-mundo que é o mundo da arte, é possível
ser "plano", sim, mas não "literalmente
plano", porque isso beira o insuportável. De qualquer
forma, nos dias de hoje, em que a fundação de um
lugar, a inserção topológica e o diálogo
com o entorno são os clichês mais in da voga site-specific,
não espanta que eu me espante com uma proposta "deslocada"
como a de planopinturas.
Aliás, essa questão - a do
"não-lugar", se quisermos - é algo que
está presente em outras obras do artista. Veja-se, por
exemplo, aqueles seus tacos de sinuca. Cada taco, com sua matéria
e peso específicos, pede, claro, um manuseio efetivo, quer
dizer, pede o uso do corpo, dos músculos, e não
apenas do "olho" - numa operação que remonta
a Blindhotland, de Cildo Meireles, pra não falar dos "falsos"
ready-mades, de Iran do Espírito Santo. Mas cada taco,
contudo, por sua própria estrutura "escultórica",
funda também um outro problema espacial: o de sua acomodação,
ou melhor dizendo, de sua dificuldade de acomodação.
Há por certo, e não nego, um espaço instaurado
pelo corpo dessas obras, mas a sua relação com o
corpo do mundo - as paredes, o chão, as nossas mãos
e olhos - é sempre (no bom sentido) problemática.
Os tacos jamais estão, por assim dizer, "bem dispostos",
e não podem mesmo estar: são desajeitados, desconfortáveis
e trazem na estrutura um constante desafio aos nossos corpos e
opções curatoriais - largados num canto ou cenograficamente
"apresentados", são sempre instáveis,
portanto. Não têm lugar.
O mesmo eu poderia dizer dos baralhos.
Não há uma "exposição" ideal
para eles, e, igualmente, não pode haver. Fechados, negam
a sua razão de ser, pois ocultam a operação
na qual se fundam: a reprodução anestésica
da mesma carta do mesmo naipe. Mas abertos, parecem apenas ilustrar
uma estratégia produtiva, um projeto que de qualquer modo
não se reduz às eventuais variações
nas disposições das cartas, das caixas, no mundo.
Toda "acomodação" desses baralhos, convenhamos,
é ao mesmo tempo a recriação e a violação
do seu entorno, uma vez que no limite não importa em que
pontos eles eventualmente toquem a superfície das coisas,
pois cada "toque", aqui, é, ou poderia ser, diferente.
E aqui voltamos - por outra via - ao ponto
inicial: qual é, afinal, o lugar de uma "idéia"
no mundo? A pergunta, sabemos todos, é basilar para o campo
da estética. "Planopinturas" - Tony mais uma
vez responde -, pois "planos" também são
projetos, propostas, operações descarnadas que,
no entanto, definem escolhas, caminhos. Mas, eu me pergunto, por
que a "pintura", justo ela, aparece nesses "planos"?
Porque, oras, porque há nessas imagens muito do próprio
universo da "pintura": a ocupação de uma
quadratura delimitada, as articulações icônicas
entre cores, tons, linhas, planos - além de diversas referências
à própria história da pintura, de Volpi a
Sued, passando pelo concretismo, e de Albers a Peter Halley, passando
por Barnett Newman; sem contar a inteligência pop que surge
no uso esporádico da ironia, na fatura do design, no diálogo
com a iconografia de massa ou nas cores "publicitárias"
- no poder, enfim, de re-significar todo o arsenal de nossas "insignificâncias"
cotidianas. Desse modo, as reminiscências das "pinturas"
nas "planopinturas" parecem, portanto, evidentes - e
de fato seriam, não houvesse aqui um ligeiro desencaixe:
as imagens, essas coisas literalmente planas, esses projetos multiplicáveis
ao infinito, sendo coisas "sem-lugar", não são
e nem podem ser, portanto, pinturas.
E desde as minhas primeiras conversas com
o artista, essa distinção entre planopinturas e
pinturas ficou demarcada. Mas preciso admitir, tendo visto agora
as novas obras de Tony Camargo expostas na Casa da Imagem, que
eu aprendi um pouco mais sobre o que é pintura. Nada, ou
quase nada, do que estava lá, nas paredes da galeria, como
pintura - quer dizer, como "lugar" do trabalho pictórico
-, eu poderia ter previsto (pré-visto) a partir das planopinturas.
E, mais uma vez, espantaram-me suas obras. A cor como pigmento
vivo e o embate com as proporções fugidias das tintas
em lugar daquele punhado de milhões de pixels. A superfície
como reflexo - uma presença no mundo - e não o backlight
insípido do monitor. O confronto com a escala mundana,
a solidez imponente das pesadas armações de madeira,
as variações sutis nas viscosidades da tinta, as
laterais como parte do todo, as diferentes texturas, os pequeninos
relevos, as camadas obsessivamente sucessivas e todas aquelas
perfeitas imperfeições. Os "erros" incorporados
e, finalmente, as inevitáveis alterações
dos projetos originais. Tudo lá.
E qual não foi minha surpresa ao
ver que uma das melhores pinturas desviou-se de seu "projeto"
original, e que nesse desvio não pôde, felizmente,
apagar os vestígios da inesperada mudança de "planos".
As referências iconográficas das imagens não
se perderam, por certo, mas o que ali mais pulsava, era de fato
pintura. Aquilo tudo, eu pensei - e quem diria? - agora simplesmente
fundava um lugar.
Mas não um lugar fixo e estabilizado,
por certo - e nem poderia sê-lo. Até bem pouco tempo
atrás, Tony estivera preocupado literalmente com o espaço,
com a dinâmica dos corpos, com a compreensão estrutural
do mundo dos objetos ou dos objetos no mundo. Aquela "inteligência
da máquina" a que Paulo Venâncio apontava acerca
de Waltércio esteve desde o início demasiadamente
próxima de Tony para que não cultivasse efeitos
em sua atual lógica pictórica. E se não há
dúvida que o hic et nunc de cada pintura serve, por definição,
para fundar uma presença sempre atual que nada mais é
do que um "lugar" no território da experiência,
no caso de Tony é agora no plano da visualidade que suas
pinturas repõem as questões da inconstância
espacial, da contradição estrutural e da instabilidade
perceptiva já presentes em sua obra anterior.
Sabemos que a rígida aporia modernista
- que dispunha o plano pictórico, a narrativa literária
e o universo tridimensional como um conjunto de oposições
irredutíveis - não alimenta o imaginário
poético atual; e com Tony não é diferente.
Assim, se nossa experiência do mundo não é
coesa e portanto não comporta ontologias perceptivas absolutas
ou essenciais, e se já se vão quase trezentos anos
desde que Berkeley afirmou que a aquisição do "espaço"
é a infiltração do tátil e do cinético
no retiniano, por que então não ver na falta de
fixidez de certas pinturas de Tony um elogio sincero à
própria ambigüidade da arte?
Os "objetos" ainda estão
ali, presentes nas pinturas, planificados, condensados. Mas há
neles uma operação com o "espaço"
que, no plano da percepção, e como bem notou Marco
Mello, é da ordem da instabilidade. Concordo com ele. Pois
na minha leitura, há nessas pinturas, em relação
aos trabalhos anteriores de Tony, uma espécie de continuidade
da dificuldade de acomodação como problema poético
- o que não é senão outro modo de afirmar
o mesmo.
Enquanto gesto autográfico suas
pinturas estão certamente distantes de seus objetos anteriores.
É ponto pacífico. Mas não consigo deixar
de notar que há, entre todos estes procedimentos, um certo
desfiar poético comum, ainda irregular, mas comum: uma
agenda de interesses provavelmente fundada na dúvida sobre
justamente o lugar da arte no mundo, e mais especificamente sobre
a instabilidade desse lugar no mundo contemporâneo.
A inconstância na relação
figura-fundo, a dialética de certas "imagens escultóricas",
a incongruência entre a profundidade infinita e a planaridade
quase literal, o vazio alternado mas não impositivo das
máscaras na fatura e a geometria irônica, para-compositiva
e anti-utópica são alguns dos principais elementos
ambíguos que ativam, na pintura de Tony, a sua desviada
hermenêutica do espaço.
A sua alegoria do não-lugar.
*Artur Freitas é historiador da arte, co-editor
do jornal cultural Preto no Branco, doutorando em História
pela UFPR e professor nas Pós-Graduações
em História da Arte da EMBAP e da FAP, em Curitiba.
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