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Preciso acreditar que ao fechar
os olhos o mundo continua aqui
Fotografia - 210x90 cm - 2006
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Preciso acreditar que ao fechar
os olhos o mundo continua aqui
Fotografia - 210x90 cm - 2006
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Todos precisam de um espelho para
lembrar quem são
Plotter de recorte - Dimensões variáveis -
2006
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Sem título - Fotografia -
300x100 cm - 2002
Coleção Ybakatu Espaço de Arte
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Sem título - Fotografia -
3000x150 cm - 2005
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Sem título - Fotografia -
120x150 cm - 2005
Coleção Ybakatu Espaço de Arte
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Sem título - Fotografia -
300x100 cm - 2007
Coleção Particular
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Preciso acreditar num mundo fora
da minha mente
Instalação- Dimensões variáveis
- 2005
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Eu também preciso
acreditar que ao fechar os olhos continuarei neste mundo
Silencioso e triste daquele homem que perambula
solitário por uma praia acompanhado de seu cachorro. Leva
ao seu redor um vermelho escaldante, desolador e imenso criado
nos ambientes imateriais de um computador. Nada mais que um gesto
pictorialista diante dos novos recursos de criação
de imagem que nos tiram artificialmente do lugar comum. Na foto,
um homem e seu animal se tornam pequenas figuras ou nada mais
que pequenos vultos imersos naquela paisagem simbólica,
de tão alterada que foi. É a arte com o seu poder
de transformar realidades ou nada mais que uma lincença
poética que paira sobre este mundo.
Tal procedimento não se repete tão
claramente na imagem central em que se vê o oceano em sua
crueza de um cinza nebuloso e assustador, como uma pintura de
Tuner. Aqui a imagem está rodeada pelos vermelhos das imagens
anteriores como em uma pintura construtivista. No entanto, ela
foge do confinamento com o impacto central de sua força.
Rigidez quebrada apenas pelo branco que as linhas das ondas que
arrebentam na praia desenham no horizonte em que mar e céu
se confundem. Trata-se de uma instalação ou fotomontagem
levadas diretamente no plano da parede. Procedimento que vai se
repetir em outras situações criadas no espaço
de exposição quando Rogério Ghomes vai propor
aproximações entre imagens que até se parecem
idênticas. Mas não são. Nas suas pequenas
diferenças captadas na passagem do tempo, as paisagens
que estão em constante transformação, nos
indicam que um instante é diferente do outro e não
mais se repete. O fluxo natural da vida. Como Atlas que desejava
equilibrar o planeta Terra. O artista, na mesma visão utópica
do deus grego, tenta a seu modo prender aquele mundo. Rogerio
Ghomes, num gesto desesperado com sua máquina fotográfica,
deseja captar o tempo presente. Que nasce e morre. Que nasce e
morre. Que nasce e morre... Nada mais que um desejo que resulta
no congelamento dramático do que já foi.
Estas aproximações que o
artista faz ao colocar imagens lado a lado, funcionam como pequenas
narrativas topográficas que trazem uma dose de âmbigüidade
nesta disposição. O artista parece não querer
apenas fazer um registro, mas mais do que isto, captar com extrema
dureza o tempo. Ou será delicadeza? Ao colocar neste olhar,
um viés romântico e desejar nos explicitar nossa
insignificância diante das paisagens propostas, mesmo que
pequenas ou, inversamente majestosas.
Num primeiro olhar parecem carregadas de emoção,
mas se observadas com mais cuidado, percebe-se um olhar distanciado,
até mesmo, frio. É contraditória esta minha
observação. Ao mesmo tempo em que percebo a beleza
nestas imagens de Rogério Ghomes, percebo também
uma dureza nessa objetividade de suas fotografias. Uma descoberta
que nos assusta diante de fotos como as quais observam duas ilhas
distantes em meio a um oceano de matizes do mesmo azul acinzentado
e triste. Não se sabe novamente onde termina e começa
mar e céu nesta mistura sutil de tonalidades. Nestas imagens
percebemos a noção nostálgica da impossibilidade
do infinito, enquanto transcendência.
No entanto, sutis diferenças pictóricas, naturais,
na profundidade das duas fotografias postadas lado a lado em que
a única informação capaz de alterar este
ambiente contemplativo do silêncio proposto por Rogério
Ghomes, é a passagem de umas poucas nuvens. Transformações
quase imperceptíveis em meio a pesada atmosfera das vistas
panorâmicas. É como se tudo tivesse um outro ritmo
e tempo no lado exterior das imagens quando levadas à parede.
O entorno e o ritmo do espectador circula em outra velocidade
diante do quê se observa e que nos determina também
uma outra relação objetiva com a escala das coisas
no mundo.
Em outros dois trabalhos apresentados lado a lado, pedras cobertas
do verde intenso do musgo e debruçadas no espelho negro
e profundo de um riacho, parecem à espera de narciso(s)
a se jogarem naquele silêncio de pequenas sutilezas. Um
outro canto romântico do mundo, proposto pelo artista.
Mais imagens e nos deparamos com ambientes cortinados com tecidos
translúcidos.
A fotografia agora, comumente associada ao registro da realidade,
assume ares de representação. Janelas das janelas.
Percebe-se novamente o silêncio a mirar a luz que vem de
fora. Vestígios da dualidade do dentro-fora num jogo mútuo
de esconder-se do próprio tempo. Imagem, ficção
e realidade se confundem em vistas planificadas e indiferentes
do mundo exterior vistas do mundo interior.
São as outras licenças poéticas que o trabalho
de Rogério Ghomes permite aos incautos como eu, capazes
de simplificar e procurar beleza, em tudo que nos cerca, em uma
época em que há pouco espaço na sociedade
contemporânea para a contemplação. Ou simplesmente
espaço para este tipo de exercício que aqui me habilito.
Pensar e refletir e pensar sobre o tempo perdido. O sublime ou
o belo são marginais em uma época saturada de tensões
e imagens banais e velozes. Será que temos realmente a
cabeça nas nuvens?
Ao me deparar com o trabalho de Ghomes, fiquei à procura
num primeiro instante, das pequenas sensações que
suas fotografias me provocavam. Como um observador qualquer, ainda
sem o compromisso e responsabilidade do texto.
Obviamente, que o trabalho tem complexidades que o primeiro olhar,
não é capaz de captar nas sutilezas do poder implícito
das imagens, ditadas pela sociedade contemporânea, período
em que são permitidas manobras técnicas, como digitalização
de uma fotografia. O que, perigosamente, permite revelar ou simular
realidades e as não-verdades.
Ao assumir-se como artista, o fotógrafo Rogério
Ghomes, no entanto, licencia-se do compromisso com a realidade
dos homens comuns que se percebe apenas na superficialidade das
coisas. Ele num gesto artístico ultrapassa esta camada
do mundo e capta não só a matéria, mas os
fenômenos que se escondem nos planos de suas fotografias.
Temos sede de não realidades.
Desejei antes de tudo incitar o belo como possibilidade de arte
na atualidade, ao pensar nas fotos de Rogério Ghomes. No
entanto, deparo-me com outras inquietações sobre
o tempo. O ritmo do silêncio, os impulsos do movimento.
Hoje, fotografar tornou-se um gesto tão fácil que
tudo ficou registrável e, portanto, retocável com
estes novos avanços tecnológicos na geração
da imagem. A pureza ética então, há tempos
acabou. E o acaso tomou lugar da testemunha ocular dos fatos naturais
e humanos. Aquela fotografia que registrava a vida cotidiana como
lembranças vividas perdeu lugar, conseqüentemente,
diante da quantidade de imagens banais que circulam por meio destes
novos dispositivos eletrônicos.
Como se fotografa tudo sem a preocupação de selecionar
no clic à espera do instante certo, da percepção
do momento sublime, fotografar também não requer
mais originalidade.
As imagens de Rogério Ghomes são fortes na sua simplicidade
e lembram desolação e silêncio(s) ao nos despertarem
como se olhássemos através de janelas, para sentimentos
como a percepção da passagem silenciosa do fenômeno
tempo. Apenas formas e cores, luzes e sombras fixados por sua
câmera fotográfica na nossa noção de
tempo.
Restou então ao artista, na era da imagem digital e diante
de tais recursos, diferenciar-se em meio à mesmice no gesto
fotográfico e registrar o que realmente deveríamos
observar e memorizar, como disse sutilmente Susan Sontang. As
potenciais anotações do mundo.
ricardo resende
fortaleza, janeiro de 2006
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