O tecido me fascina. vejo neste material muitas possibilidades
de construção. Existem tecidos de diversas espessuras,
texturas, cores e padrões. Com o pano fazemos coisas
para proteger o corpo, como roupas, cobertas, cabanas; usamos
o pano dentro de casa para velar a janela, forrar um assento,
dividir uma sala. Nas ruas também encontramos materiais
semelhantes ao tecido: a lona, o plástico mole, a tela
de nylon; são usados nas barracas, abrigos, obras e
construções.
Sempre existe um pano que está próximo ao corpo.
Se o pano está encostado na pele, nosso peso, tamanho,
movimento, transpiração fazem marcas em sua
superfície; os tecidos das roupas, forros e cobertas
ficam enrugados com o uso.
Observo as roupas que estão
fora do corpo e percebo nelas os vestígios de quem as usou.
Vejo nos leitos e assentos vazios os sinais daqueles que ali deitaram
ou sentaram. Olho com atenção para os panos dobrados,
esticados, pendurados, empilhados e sinto neles o movimento dos
corpos que executaram estas tarefas.
Os materiais moles que estão em contato, ou ao redor do
corpo, costumam estar acompanhados de elementos importantes. Uma
estrutura pode suportar e/ou dar forma e volume ao tecido. Esta
estrutura pode ser a própria construção do
lugar. Um varal de roupas é extendido entre duas paredes;
um pano que cobre a prateleira é fixado com pregos na tábua.
existem também armações feitas de madeira
e ferro que têm a função de suporte. Um assento
de madeira pode ser recoberto com um pano; uma tenda pode ter
barras de ferro para sustentar a lona de cobertura.
Gosto de reparar no uso caseiro que fazemos dos panos apoiados
em estruturas. Eles estão nas peças de uso diário
e são construídas com nós, amarrações,
costura manual, pregos na madeira, emendas de arame. Têm
improviso e originalidade nessas construções que
são, sobretudo, muito pessoais.
Que sensações essas experiências causam em
mim? Será que vejo nesses objetos inanimados as vivências
dos corpos? O que quero compreender quando observo tão
atentamente esses materiais? Essas perguntas me movem para construit
os trabalhos. Uso os tecidos pois ele pode ser visto como uma
pele; o veludo é a metáfora de uma pele macia. Quero
aplicá-lo para traduzir as sensações e sentimentos
das experiências diárias. Desejo materializar formas
que conduzem à lembrança de fatos e vivências
do cotidiano.
Renata Pedrosa, 2004
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Fotografias
da montagem da obra
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Design
da página: Fábio Channe