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Sobre o trabalho de Rafael
Alonso
Ao entrarmos em contato com esta série
de trabalhos de Rafael Alonso devemos entender duas sutis operações:
A primeira, e mais evidente, é a de execução
e conseqüente registro de um ato compulsivo - inúmeros
elásticos de borracha, como os encontrados em escritórios
e salas de aula, são adicionados, um a um, a diversos suportes
que vão desde pequenos tacos de madeira a sanduíches
de lâminas de vidro. Os elásticos são colocados,
lado a lado, de tal forma a assumirem, suavemente, o formato do
suporte, ao envolvê-lo, constituindo tijolos geométricos
de cor, como os módulos minimalistas.
A segunda, e mais elaborada, se dá no ambiente do real,
onde o objeto é acrescentado - por meio de sua quase que
total descaracterização. Mas, para uma melhor compreensão
do fato, é necessário que conheçamos alguns
detalhes de sua confecção: os elásticos são
comprados em lojas varejistas, em geral mercados populares do
Brasil, em sacos plásticos sendo que, neles uma inscrição
é encontrada: "proud to say, made in USA". A
frase sinaliza - explicitamente - a demonstração
nacionalista e imperialista de uma potência mundial.
Quando o jovem artista brasileiro adquire tais objetos e dá-lhes
uma nova configuração acaba por atingir e dar fim
a essa essência básica - mas sem o aspecto piegas
e exagerado de determinados revolucionários mais exaltados,
mas sim, com sutileza de uma pequena sabotagem ou travessura:
o objeto de consumo produzido num país-potência e
exportado a um país subdesenvolvido tendo como objetivo
o bem estar sócio-econômico do primeiro e achatamento
do segundo, agora é um objeto de arte precário que,
como já dito antes, ironicamente, nos remete à determinado
momento da história da arte da potência - no caso
a norte-americana - mas que é produto da América
do Sul, mais especificamente o Brasil.
Outro aspecto de sua descaracterização é
mais material que conceitual: da maneira em que os tijolos são
confeccionados, fazem-nos perder a referência do material
utilizado, tornando-o irreconhecível e gerando até
certo ponto um estranhamento, fazendo-o não mais elásticos
de borracha - mas tinta, como numa pintura tradicional.
Algo que, definitivamente não podemos afirmar - equivocadamente
- é que ocorreu uma perda ou troca de função
desses pequenos objetos - como na operação básica
Duchampiana - pois o elástico ainda mantém sua função
específica original: envolver, unir e sustentar outras
estruturas. O que ocorre, sim, é sua potencialização
a objeto artístico, fazendo-o ir além deste seu
objetivo básico, se constituindo em uma estrutura capaz
de atingir aspectos sociais, econômicos e estéticos
da sociedade.
Alvaro Seixas

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