|
Nazareno - Alguns Conseguem
Conversa informal ocorrida em agosto
de 2005 entre Ana Teresa Jardim, Ana Miguel e Nazareno sobre seu
trabalho
Nazareno (NZ) - Ana Miguel (AM) - Ana Teresa (AT)
NZ - Os contos de fadas, a maneira como eu os vejo, como eu os
coloco, existem numa dimensão humana, muito humana mesmo.
Por mais que as coisas possam se apresentar com a solução
vinda de personagens mágicos, no fundo, tudo aquilo são
histórias relatadas para seres humanos e, essa suavização,
que é dada ao longo dos anos, a princípio não
existia. Na origem desses contos, as pessoas viviam uma vida muito
dura, muito pesada mesmo. Acredito que a noção do
conto dava, ou podia dar, um pouco de fantasia, um pouco de alento
a essa realidade tão dura. E, bem, o que eu tento mostrar
é que não há um distanciamento da estrutura
real para esse mundo das historinhas. Até que ponto essas
coisas realmente não se encontram? Onde é que essa
origem se separou tanto assim? Eu não sei. Eu tenho minhas
dúvidas, pois, por mais que pareçam absurdo, alguns
relatos são perfeitamente possíveis de acontecer.
AT - Como você vê a força
do símbolo do arquétipo? Porque você diz que
os contos de fadas são muito humanos, mas o contrário
também.
Na medida em que você pega o que é muito humano e
encerra como arquétipos, você também pega
o que é muito humano e traduz de uma forma mais poderosa,
mais universal. Talvez você tenha sentido necessidade de
usar esse procedimento, essa forma.
NZ - Para aquelas situações
propostas sempre terem soluções mágicas,
sobrenaturais, no fundo as tramas são bem humanas, na dimensão
do cotidiano. O que é possível de acontecer a qualquer
um. Como por exemplo, as perdas: a perda do ente querido, do provedor;
a necessidade da auto afirmação, a necessidade de
alcançar êxito, ou de parecer com o outro, de ser
aceito, da obrigação de construir seu próprio
mundo. E aí vêm as ajudas diversas, as ajudas, os
encontros, a sorte, o desenvolvimento dos fatos, e como as coisas
vão se colocando. E, o que eu acho mais importante, talvez,
nessa estória da narrativa da Boazinha, é que tudo
é uma tentativa de concretizar os sonhos e a sua não-concretização.
Nos meus contos não existem finais felizes, não.
Os finais são bem assustadores. No caso da Boazinha, ao
final, ela se encontra caída e abandonada, assombrada num
mundo criado para ela, por que é o mundo da aparência
(no qual ela foi abandonada) que ela tenta atingir, e se vê
destituída desse mundo. Pode-se observar que essa estória
não existe redenção.
AM - Não há um desejo de
redenção no seu conto de fadas. Acho que assim a
gente se aproxima mais do trabalho.
NZ - É porque o trabalho é
duro. Ele não mostra a possibilidade de um final feliz.
E aí, eu podia até me perguntar: por que não?
Por que eu não quero! (risos) Quer dizer, eu não
tenho vontade que isso se apresente. Por muitas vezes não
vai se apresentar.
AT - Eu acho interessante como você
resolveu esse conflito. Você dramatizou, você pegou
esse conflito e o colocou no auge, no máximo, na chave
mais potente.
NZ - O que eu estou apresentando aqui é
no grau máximo, é aquela ruptura mesmo. O grau máximo
do conflito, da dramatização. E aqui se entenda
drama como um processo pesado, intenso.
AT - Por que você quer o grau máximo?
Por que ele é mais eficaz dramaticamente!
NZ - E a partir daí, como é
que essa emoção opera, o que acontece mesmo.
AT - Interessante, pois tem a questão
do conto de fada e do teatro.
NZ - É muito do teatro esse trabalho.
AM - Do drama!
NZ - Sim. Dessa encenação,
algo como um teatro dos contos de fadas.
AT - Eu não estou vendo tanto os
contos de fadas. Para mim, o elemento de contos de fadas, para
entender o trabalho, está menos importante.
NZ - è um elemento a mais. É
um trabalho onde há muito interesse nos contos de fadas,
mas não somente neles.
AT - Existe o processo da dramatização
de que Ana Miguel falou.
NZ - Sim. A questão das personagens.
AT - As personagens arquetípicas.
NZ - Exato.
AT - Esse imaginário da capinha,
da princesa, das roupas...
AM - Eu identifico a encenação
do pathos, em nível potencializado; a busca dessa potência
plena do pathos e seus vários recursos.
AT - Isso é muito importante. Por
que eu acho inclusive, que todos os seus trabalhos anteriores
têm isso.
NZ - Sim, claro. Eles se encontram.
AT - Sim, posso citar a situação
da cadeirinha 4,3,2,1, você perdeu! Existe a situação
da solidão do vencedor.
NZ - Bem, meu trabalho lida muito com a
condição de se criar uma expectativa, uma falsa
expectativa no espectador, quase como um convite, mas que... ao
longo do entendimento e de seu andamento, como no exemplo das
cadeirinhas...
AT - Eu acho que tem um elemento muito
forte em tudo isso que é uma perda, eu acho que em tudo
isso tem um perdedor. Porque o pathos é o patético,
existe uma coisa do patético nessa noção
de que o sujeito nunca vai vencer, que é o que ocorre na
tragédia. O Édipo nunca vai vencer, ele está
condenado.
NZ - Sim. É também um pouco
semelhante ao mundo kafkiano, onde você pode até
vislumbrar a transcendência, mas ao mesmo tempo você
se vê impossibilitado de transcender. Todas aquelas narrativas
de Kafka, e o cito por ser um autor que me interessa muito; como
é que você faz essa passagem, essa transcendência
mesmo? No geral, você não consegue.
AT - Acho que nesta questão, numa
noção de jogo, existe muito a possibilidade de perder.
NZ - Claro, existirá sempre um perdedor.
A perspectiva de perder, digamos, é real.
AT - Sim, nesse trabalho existem duas mulheres
disputando.
NZ - E uma obviamente vai perder.
AT - Existe uma dramatização
da perda, da figura do perdedor, do "loser".
AM - É, dessas duas figuras. E o
mito do perdedor.
AT - Creio que isso é muito importante
no seu trabalho.
NZ - Sim. É um aspecto recorrente
e muito caro.
AT - Diria até fundador, porque
a pessoa sempre perde, no seu trabalho; às vezes ela perde
porque ela não está ali no momento, como no trabalho
dos pianos (enquanto eu te espero). Quer dizer, ela perde porque
perdeu o "timing", ela perde sempre, não importa
como ela jogue. Ela perde.
NZ - Exato, isso está no meu trabalho.
Veja bem: existe a relação do jogo, como assunto/
matéria, e no jogo tem uma coisa muito clara, ou se ganha
ou se perde. Você não tem meio termo. Não
é? E daí que , se fôssemos fazer uma analogia,
teríamos que ir ao ponto máximo, não se pode
ficar no meio do caminho, deve-se ir até as últimas
conseqüências, como é o caso dessas duas personagens,
uma claramente vence e a outra é derrotada.
AT - Mas não existe também,
por outro lado, uma certa torcida pelo perdedor?
NZ - Para que a pessoa perca? (risos)
AT - Não, eu sinto no seu trabalho
que a gente está torcendo pelo perdedor, que a gente se
identifica, que se desenvolve um carinho por aquele que perde.
NZ - pela figura do perdedor.
AM - Eu acho que a palavra é o carinho
pelo perdedor.
NZ - Sim, existe esse carinho, agora ...
por que esse carinho?
Porque muitas vezes existe identificação com a figura
que perde.
AT - Seu trabalho leva o espectador a se
identificar com a figura que perde. A gente desenvolve esse carinho.
NZ - Bem ... isso talvez se dê pelo
fato de o perdedor ser uma figura digna de pena?
AT - Não.
AM - Não.
NZ - Veja, também concordo que não.
AM - Não, assim como a figura do
perdedor e do vencedor nos são apresentados pelo mundo,
uma coisa que está muito em questão hoje em dia,
somos colocados frente a todas essas questões tristes que
o mundo contemporâneo nos apresente, enfim a todo momento,
mas existe a figura do perdedor e do ganhador dentro de sua obra
e elas são apresentadas de maneira muito interessante e
mais complexa do que essa que o mundo nos impõe. A do mundo
é, digamos, mais primária, e no seu trabalho não
há uma leitura tão primária da figura do
vencedor e do perdedor. Creio que em seu trabalho há uma
leitura que envolve uma reflexão, um carinho por essas
figuras, pela ilusão dessas disputas, pelos diferentes
aspectos que essas disputas e resultados vão acarretar.
AT - Acho mais até, que existe uma
relação com o romântico, não no sentido
banal, no sentido da arte romântica, da literatura romântica.
Existe em relação ao perdedor o fato de que o perdedor
é o grande personagem de todo seu trabalho; a gente se
coloca na figura dele, o espectador está convidado a estar
em seu lugar porque ele é o sensível. O perdedor
é a pessoa que acredita.
NZ - Sim, ele é o sensível,
o que acredita nas ilusões, ele vai fundo, ele aposta.
AT - Sim, ele é ferido porque é
sensível, porque acredita.
NZ - Seria quase como o "trouxa",
o tolinho?
AM - Talvez não, a figura do perdedor
no seu trabalho é uma figura mais complexa, mais adorável...
NZ - Veja bem, quando digo o tolinho, o
bobinho, digo no sentido do crente, do believer mesmo, de acreditar
que isso é uma qualidade.
AM - Sim, isso é adorável.
NZ - Claro é adorável porque
você tem a capacidade de ter fé, apesar das adversidades...
mas ele vai perder do mesmo jeito...(risos)
AT - Mas isso não importa, porque
ele é o herói nos seus trabalhos.
NZ - Lógico, ele é o herói.
AT - Acho que seu trabalho tem essa questão
romântica, nesse sentido da idealização de
Byron.
NZ - Tal qual aquele que acredita em ilusões.
AT - Eu acho que tem uma idealização,
creio que você tenta ser muito realista, Nazareno, mas você
não é.
NZ - Ah, não?
AT - Não! No fundo você está
torcendo para o perdedor. Existe uma torcida por uma saída.
Você fala da impossibilidade dessa saída, mas no
fundo existem muitas saídas. Você está dizendo:
"não, não existe saída". Mas existe
um subtexto no seu trabalho que diz que é preferível
ser o sensível, que é mais humano ser o sensível,
e que, mesmo perdendo, no fundo ele vai ganhar.
AM - No trabalho das cadeirinhas, no fundo,
o que ganha fica numa situação extremamente constrangedora,
sozinho, e viradinho para a parede, e só.
AT - Nesse trabalho das duas mulheres,
no fundo, a gente fica com pena.
NZ - Bem... é um trabalho triste.
AT - Ele inspira terror e pânico,
e a gente, no íntimo, fica com pena daquilo, da personagem
que fica caidinha; na verdade a gente está torcendo por
ela.
NZ - Bem, a gente torce por uma situação
feliz, e a partir do momento em que isso não acontece,
claro que a vítima sempre vai atrair mais atenção,
por piedade mesmo, por ser vítima, por ser vulnerável.
AT - No seu universo, esse paralelo não
tem essa equivalência. Existe esperança total de
que, em vez dessa crença na fatalidade, persista uma esperança
real. A saída não é importante, o mais importante
é o sentimento de ser o perdedor, o que abre mão
de vencer.
NZ - Eu não sei até que ponto
ele abriu mão de vencer, porque ele entrou no jogo, ele
tentou, se não conseguiu é outra coisa. Abrir mão
é algo diferente.
AT - Importante é o valor da sensibilidade,
o ser sensível, a consciência do sensível,
pois não importa se no final ele vai ganhar, pois ele ganhar
ou não é o meio. Existe a subjetividade dele e seu
trabalho está ligado a essa subjetividade. O mundo é
apenas um acidente da subjetividade. O mundo é a coisa
dura, mas a formação dessa subjetividade, dessa
sensibilidade, em particular no espectador, é o que é
importante.
NZ - Poder ser. Algumas pessoas podem se
identificar com esse mundo sensível, apresentado como um
mundo difícil, com o qual têm que lidar; e aí,
ao lidar com os jogos, entender as suas potencialidades, quer
dizer, como se manter no jogo, algo como compreender que mais
importante que chegar lá, é como se manter lá.
Acho que é esse o grande desafio.
AM - A sensibilidade é muito valorizada,
quer dizer, muito realçada em seu trabalho. Creio que existe
um foco em cima das possibilidades sensíveis. Acho que
esse discurso fatalista do Nazareno aparece mais nos assuntos.
Ele aparece no trabalho como assunto, como tema, mas a resolução
dele encaminha todo um repertório de soluções
românticas e sensíveis.
AT - No fundo, acho que é um elogio
à sensibilidade.
NZ - É, mas o sensível perde.
(risos)
|