2003
- Galeria Massagana - Fundação Joaquim Nabuco -
Recife - PE -
2001 - Ecomuseu de Itaipu - Foz do Iguaçu - PR
1999 - Núcleo de Arte E Cultura - NAC - Natal - RN
1999 - Núcleo de Arte Contemporânea - NAC - João
Pessoa - PB
1998 -- Museu de Arte de Cascavel - MAC - PR
Cheung Miu Kuen - Maria Cheung
29 de Março de 1957 - Hong Kong
Graduada em Educação Artística pela Faculdade
Santa Cecília, Santos - SP. Realizou diversas exposições
coletivas e individuais no Brasil e no exterior. Possui vários
prêmios em certames artísticos, entre eles um em
Milão, Itália. Atuou como professora de Cerâmica
e Gravura na Faculdade Santa Cecília, em Pindamonhangaba
- SP. Trabalha em Foz do Iguaçu, onde tem um ateliê
de Cerâmica.
ÍCONES DA DOR E DO SILÊNCIO
O nome de Maria Cheung - radicada em Foz do Iguaçu -
impõe-se como uma das grandes revelações
das artes plásticas no Paraná na década
de 90. ela passa a ser conhecida a partir de uma instalação
apresentada no 53º salão Paranaense (1996), onde
é premiada. surpreende, então a comissão
julgadora pela energia zen de sua proposta; transmitindo a certeza
que a arte paranaense estava penetrando em uma nova concepção
de territorialidade da escultura/cerâmica.
Certeza esta, não só confirmada como ampliada
para o conceito de "escultura expandida" - teorizada
por Rosalind Krauss - com a capacidade de incorporar materiais
diversos, ultrapassar a postura estática da escultura
como objeto de contemplação, para incorporar o
sentido temporal, por vezes perecível, inserindo-se na
vida humana e na suas circunstâncias; acrescidas, agora,
na instalação "NUI" (mulher em chinês)
- em exposição na Casa Andrade Muricy- de um caráter
confessional, enquanto revelação da sua própria
identidade sócio cultural . Maria Cheung cria um espaço
para a meditação, reflexão a nível
da antropologia cultural e contestação ao "status
quo"; abrindo a caixa íntima de segredos para revelar
a alma feminina, discutindo a condição da mulher
nas sociedades patriarcais. É tal a força simbólica
contida em sua proposta, que ela consegue penetrar em realidades
iconográficas distintas, para nos falar em linguagem
universal, inspira-se em sua bisavó e nas mulheres chinesas
que até o século XIX tinham os pés mutilados
- enfaixados desde a infância - para não crescerem
além de oito cm de comprimento.Os homens obrigavam as
mulheres a este sacrifício não só porque
para eles os pés pequenos e enfaixados eram um fetiche
sexual, como também representavam submissão e
clausura.os pequenos passos que conseguiam dar, tornaram-nas
frágeis e dependentes; sem autonomia par se locomover
livremente. Em sua instalação os pés cerâmicos-
ícones da dor- são depositados como "ex-votos"
em um templo imaginário habitado pelo silêncio
milenar.
Em "fetiches", ela instala pés de cerâmicos
em meias pretas de nylon, construindo pernas processionais,
onde alude à poética do vazio, criado por uma
multidão de mulheres roubadas em sua essência mais
humana que é a liberdade. marcha silenciosa de pernas
que se multiplicam formando um corpo social milenarmente oprimido
em um universo isolado e castrador. para criar a "sala
dos sacrifícios" constrói sobre a areia,
um grande retângulo, sobre o qual sobrepõe retângulos
menores, construindo com plástico
transparente, água, com corante vermelho e pés
cerâmicos brancos. a sensação macabra de
mutilação humana- envoltas em sangue - cria o
símbolo do sacrifício milenar onde gerações
e gerações de mulheres chinesas foram sacrificadas,
ao mesmo tempo, torna-se evidente a metáfora da passagem
para outro plano, após o holocausto. como um antropólogo
social em "magna mater" utiliza samburás suspensos
contendo pés de cerâmica que em sua alusão
aos peixes - chamados "pássaros das zonas inferiores"
- associam-se ao inconsciente e á idéias de sacrifício.
ao mesmo tempo, contrapõe a materialidade do metal -
elemento industrializado- ao sentido orgânico da cerâmica.
cada samburá torna-se, portanto, um elemento de tensão,
aberto a inúmeras leituras; clã, trabalho confinado
às clausuras que estas mulheres monacais eram obrigadas
a viver. Tratam-se de objetos mitológicos, cuja leitura,
exige consciência antropológica. com espetos de
metal monta as "schekinas:", onde os pés cerâmicos
espetados falam-nos não só de dor e tortura, -
como condição de purificação para
recuperar o estado angelical -; como, também, do egoísmo
gerado pelas fechadas sociedades patriarcais, que tiram das
mulheres o direito à autodeterminação,
condenando-as ao silêncio, e ostracismo. "faces roubadas"
- múltiplos das máscaras da face, que carbonizadas
escurecem - denunciam a carga de dor e opressão acumuladas,
criando em seu efeito dramático cujo eco nos atinge até
hoje, verdadeiras máscaras sociais.
Nesta instalação Maria Cheung deixa transparecer
um alto grau de consciência histórico - social.
Aprofundando-se no conceito da filosofia oriental - em sua potencialidade
espiritual - ela cria ícones da memória que conseguem
nos falar não só da cultura chinesa, como da alma
do mundo.
Adalice Maria de Araújo
Cerâmica e samburás. Fotografia:
Jens Beuthler
Cerâmica e samburás. Fotografia:
Jens Beuthler
Cerâmica, plástico, água
e pigmentos. Fotografia: Jens Beuthler
Cerâmica e plástico. Fotografia:
Salete Bramatti
Cerâmica e meias de náilon.
Fotografia: Jens Beuthler
Cerâmicas e meias de náilon.
Fotografia: Jens Beuthler
Cerâmicas e náilon. Fotografia:
Maria Cheung
Cerâmica e ferro. Fotografia:
Maria Cheung
Cerâmica, plástico, água
e pigmento. Fotografia: Jens Beuthler
Fonte:
1 - Imagens digitalizadas pelo MUVI a partir do folder da
exposição
2 - Fotografias digitalizadas cedidas pela artista
Nui
Com uma aparência delicada
e tímida, Maria Cheung foi mostrando seus trabalhos e logo
estávamos falando a mesma língua, isto é,
a da sua arte, que traz uma dimensão da cultura chinesa
e fala de um feminismo universal.
Persistindo na dialética entre o local (a China em que
nasceu) e o global, entre o sujeito(ela mesma) e o objeto (seus
pés moldados), entre o real e o imaginário, Maria
provoca, expõe o desejo feminino.
Na sua obra, imagem, forma e matriz são figuras, não
no sentido figurativo , mas na acepção que Lyontand
atribui ao "figural",isto é, pertencente à
ordem dos sentidos.
Nas meias finas transparentes, em ligas pretas a calçar
os pés brancos, explode uma energia que se move no espaço
- tempo sem fronteiras do inconsciente e realça-se a libido
na procura de satisfação do desejo.
A dimensão estética de sua obra pertinente aos sentidos
é essencialmente poética e visceralmente feminina.
Esta não é uma exposição de quadros
, objetos que possam ser adquiridos. Esta é uma exposição
onde a arte assume a sua especificidade como linguagem , e as
idéias de tradição e cotidiano são
expostas em uma nova territorialidade, incorporada de materiais
e procedimentos dos mais diversos, que se transforma em algo temporal,
que os tornam mais próximos da vida humana e das contingências
reais.
Temos assim o prazer de trazer a Natal essa peculiar e instigante
obra de Maria Cheung
Ângela Almeida
Diretora do NAC - Núcleo de Arte e Cultura da UFRN
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da página: Fábio Channe