|

Habitantes
da pintura
Heterodoxia - Latino Americana. 2005
|
|
|
MARCELA TIBONI
ARTE COMO EXPERIÊNCIA COM A ARTE
A trajetória de Marcela Tiboni vem constituindo-se de trabalhos
nos quais, sob o código da assimilação pela
vivência e as experiências decorrentes desta, desvela-se
a relação da artista com a Arte.
Suas obras são motivadas pela sinceridade da apresentação
metafórica (que toda boa obra de arte carrega consigo)
do olhar e do sentir, terrenos privilegiados na seara artística.
Desta forma, para Marcela, o gesto do artista ou o olhar do artista
se configuram impregnados pela própria matéria da
Arte. E, deste modo, nos coloca que a Arte não se encontra
apenas no objeto produzido pelo artista, mas em todo o processo
desenvolvido por ele, manifestando-se, portanto, no momento da
concepção e realização, e, também,
na própria fruição realizada pelo espectador.
Em torno desta discussão sobre a Arte, o seu fazer e o
seu sentir, a artista cria, de forma pulsante e densa, um breviário
que acolhe todas as instâncias que envolvem uma obra de
arte e seu fabrico. E assim nos evidencia: Poderia o olhar do
artista não estar impregnado pela carga que carrega consigo
de suas experiências de sensibilização e reflexão
intelectual produzidas com a Arte, sua história, e seus
processos? E este mesmo olhar já não guarda em si
o gérmen que se constituirá num trabalho finalizado?
E o gesto? Este, por sua vez, não é também
matéria da Arte, na medida em que ele é elemento
participativo do momento da criação?
Questões como estas podem ser postas a partir de trabalhos
como 'O olhar do artista' e 'O gesto do artista', ambos de 2003.
No primeiro, um olho se apresenta em close em meio a tintas coloridas
que parecem emoldurá-lo, mas que também insinuam
originarem-se a partir dele próprio. No segundo, mãos
aparentam tentar interromper, sob um fundo vermelho, um fio de
tinta de mesma cor, que cai. Neste seu deslizar, a matéria,
que escoa uniformemente sem vida, parece estremecer ao toque intenso
daquelas mãos e insistir em continuar desconcertada seu
percurso, ao mesmo tempo em que impregna de vibração
cromática os membros obstrutores (ou vitalizadores?!).
Muito para além de ser, como ocorre em muitos casos hoje,
um mero comentário a respeito do conhecimento sobre a Arte
- fundamentado em informações, muitas vezes superficiais,
da História da Arte - ou sem se deixar levar por uma metalinguagem
vazia e por resquícios caducos da arte conceitual (que
vemos invadir exposições), a obra da jovem artista
Marcela Tiboni é dotada de uma sensibilidade e intensidade
que atribuem ao seu percurso consistência e propriedade
e a torna uma das mais vibrantes a surgir, nestes últimos
anos, entre nós.
São Paulo, 2005
Paulo Trevisan - Professor e pesquisador de História
da Arte - mestre pela USP

Como trazer a tona a discussão
sobre a pintura, justamente sobre uma das técnicas mais
antigas da historia da arte? Aqueles que fazem pintura hoje desafiam
e são desafiados a todo o momento, expressar-se através
da pintura é abrir-se a inúmeras possibilidades
e perceber que praticamente todas elas já foram pesquisadas,
e incansavelmente utilizadas.
Escolhi a pintura, não pela minha habilidade com a tinta,
mas pelo fascínio e admiração por quem a
tem. Minha experiência com pintura se inicia com a experiência
com a tinta pura, com a pergunta simples do que é a pintura,
e para tal pergunta encontrei minha resposta: pintura é
o gesto mais a tinta, foi ai então que comecei a experimentar
a tinta e explorar meus gestos. O meio que escolhi para materializar
tais experiências não foi a tela, mas sim o papel
fotográfico, não o pincel mas a máquina fotográfica.
Posso então discutir uma técnica (pintura) que existe
a centenas de anos, e milhares de grandes mestres, utilizando
outra técnica que existe a pouco mais de 100 anos (fotografia).
Talvez a fotografia tenha tido uma presença mais forte
e intensa em minha formação do que a pintura, e
digo na minha formação não só como
artista, mas como ser humano. Sua rapidez, e sua capacidade de
captar diferentes imagens em pouco tempo foram qualidades fundamentais
e indispensáveis ao meu trabalho.
Pela tinta entendo pintura, e dentro da fotografia me entendo
como artista, como pesquisadora e descobridora. Impregnar-me de
tinta é como ter a possibilidade de entrar em uma pintura
e pesquisa-la por dentro, como se daquele ângulo me fosse
mais favorável desvendar seus mistérios, experimenta-los
e quem sabe compreende-los. Não só tocar a pintura
como experimenta-la de fato, alimentar-me dela, usar de todos
os meus sentidos.
Marcela Tiboni
( catálogo da exposição Pintura Reencarnada.
)

Nas fotos em que a própria artista
aparece vestida com trajes do século XX combinados com
rostos do ideal renascentista, Marcela Tiboni abre um diálogo
com mestres do passado, reavaliando uma possível relação
com a estrutura da pintura do modo como era entendida na renascença
e no barroco para o modo como a enxergamos hoje. Traçando
uma linha mental na abordagem do conceito de pintura através
de mídias variadas como o vídeo e a fotografia,
a artista discute as bases e a estrutura da pintura. Avançando
na linha do tempo, o diálogo proposto pela artista parece
se dirigir a Malevich quando este afirma: "Não pode
haver questionamento de pintura no Suprematismo; a pintura foi
esgotada há muito tempo atrás, e o próprio
artista é uma injúria do passado." Num outro
conjunto de fotos, Marcela pratica a desconstrução
da pintura tal como proposta por Mondrian, que "postulou,
incessantemente, que sua pintura estava se preparando para o fim
da pintura - sua dissolução na envolvente esfera
da vida-como-arte ou ambiente-como-arte - que ocorreria uma vez
que a essência absoluta da pintura fosse 'determinada'".
Texto escrito por Leda Catunda - Artista
Plástica. (para o Catálogo da Exposição
Tripé, no SESC Pompéia, 2005)
|