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Do
estado amoroso à melancolia e vice-versa
"O que repercute
em mim é o que aprendo com meu corpo..."
Roland Barthes
Fotos. Objetos. Textos literários.
Estes são os componentes eleitos por Gabriela Picoli
e Luciano Zanette para esta sua instalação "O
Estado Amoroso e a Melancolia". (1)
Uma instalação, entretanto, não é
apenas dispor elementos em um determinado espaço. Há
uma ordem relacional que também a compõe: aqui
é a conversa das fotos, dos objetos e textos entre si.
A relação de cada um com seu outro e a relação
de todos com o espaço.
A instalação sempre é uma ocupação
que altera seu lugar de apresentação. Nela há
um viés experimental em sua efetivação
pelo propositor e em sua percepção pelo outro.
O artista realiza escolhas e rejeições definindo
os lugares e posições dos objetos e este circuito
será experimentado pelos corpos que o irão percorrer.
Gabriela Picoli que tinha lido "Fragmentos de um Discurso
Amoroso", de Roland Barthes, e Luciano Zanette que fizera
a leitura de "Sol Negro", de Julia Kristeva, passaram
a produzir alguns trabalhos e perceberam que havia uma possibilidade
de trama entre eles. Para ainda mais adensá-la escolheram
alguns textos do escritor e fotógrafo Jerri Rossato Lima
que nos são apresentados como possibilidade de escuta
dupla. Polifonia para provocar polissemias.
Quanto às fotografias de Gabriela, elas têm como
elemento dominante o corpo humano. Este conjunto de imagens
teve seus limites determinados por escolhas formais da artista.
Elas nos lembram de como este corpo é moldável,
adaptável e sempre rico em possibilidades. Às
vezes, é um corpo passivo que sofre intervenções
na busca de assumir outra forma (quando mantém impressas
na pele as marcas destas interferências). Outras vezes,
é ativo e acolhe objetos, desenvolve gestos e assume
posições.
Luciano Zanette realiza um jogo com as formas. O objeto maior,
nascido da observação dos genuflexórios
das igrejas, foi torcido, convertido e re-inventado. O que temos
agora é um outro objeto, porém ainda podemos reconhecer
seu princípio: o estrado onde os fiéis se ajoelham
para orar. Mas aqui os dois lugares estão de frente um
para o outro (vamos lembrar que nas igrejas ficamos lado a lado
com nossos semelhantes ao dobrarmos os joelhos diante de um
deus - de quem temos a imagem, mas não a natureza). Parece
que o artista propõe que recriemos nossas posições
ao nos curvarmos em frente a um outro humano. Mais um dado:
os "genuflexórios" de Luciano são separados
por distância igual à de uma cama, logo, eles ocupam
as posições da cabeceira e seu contrário
e, entre eles, há ainda outro corpo subentendido.
É no conjunto dos objetos da instalação
e em sua maneira de ocupar o espaço que o estado amoroso
e a melancolia se tocam e influenciam, porém sem se fundirem
reduzindo-se a um único terceiro estado onde perderiam
suas potências e singularidades. Aqui elas se relacionam
e são colocadas sempre em movimento num infinito comentário
mútuo. Como pode ser na vida, entre as pessoas.
"O estado
amoroso e a melancolia tem uma ligação profunda:
um é o termo corolário do outro. A criação
literária, por sua vez, tem uma inteira relação
com ambos: não há escrita que não seja
amorosa; nem imaginação que não seja, aberta
ou secretamente, melancólica". (2)
Claudia Paim
2005
(1) Os textos
são de Jerri Rossato Lima que integra, junto com Luciano
Zanette e Gabriela Picoli, mais Marcio Quadrado e Simone Bernardes,
desde 1998, o coletivo Comfluência. Estes dois últimos
também são colaboradores desta instalação,
pois emprestam suas vozes para o áudio que podemos ouvir.
(2) Julia Kristeva.
Sol Negro. Rocco: Rio de Janeiro, 1989.

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