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APRESENTAÇÃO
A relação entre arte e público
sempre me despertou curiosidade, por querer saber qual é
o nível de profundidade na fruição de obras
de arte. Mais especificamente, este interesse se volta à
arte contemporânea, pois na minha condição
de artista procuro fazer uma leitura de como esta relação
se processa para o meu próprio entendimento, fruição
ou qualquer outra experiência que uma obra de arte venha
proporcionar.
Desse modo, os trabalhos que desenvolví foram produzidos
com o intuito de refletir sobre um pensamento considerado não
erudito, ou seja aquele que não é adquirido pelo
viés acadêmico. Ainda assim, esse gosto não
erudito se constrói por meio de diversas classes sociais
em diferentes níveis culturais.
Outro aspecto relevante, da minha produção, é
o de proporcionar uma visão da arte como forma de comunicação
entre indivíduos. Destaco este aspecto, pois, a arte contemporânea
parece estar fadada a um círculo muito restrito de iniciados
pela academia. A pouca visitação dos espaços
que abrigam este tipo de arte é um fato que parece ser
superado apenas em mega eventos, com orçamentos milionários.
No dia-a-dia, exposições menores, em sua grande
maioria, com orçamentos curtos não têm muita
visibilidade e não são vistas e apreciadas pelo
grande público.
O embate cotidiano do público em geral com a arte não
existe nem nos espaços públicos ou institucionais,
nem nos espaços privados e nem nas tentativas, por parte
dos artistas, de levar a arte para as ruas, onde teoricamente
este embate deveria acontecer.
Essa relação, entre público e arte contemporânea,
que num primeiro momento parece não ter profundidade, pois
é desse modo que os próprios espectadores se referem
ao seu grau de intimidade com a arte, é usada como matéria-prima
na construção dos trabalhos aqui apresentados.
Luciano Mariussi

A COMPRA DA PARTICIPAÇÃO
DO PÚBLICO
VITRINE DO ELEOTÉRIO
Em 2002 fui convidado a fazer uma intervenção
em uma vitrine comercial. A princípio isso me pareceu ser
uma armadilha, pois até então nunca havia feito
nada que pudesse sugerir algum diálogo com um espaço
de vitrine. Muito pelo contrário, os trabalhos que já
mencionei nesta dissertação buscavam justamente
o oposto: um espaço museológico ou ainda um espaço
estritamente destinado à arte. O espaço em questão
era a vitrine de uma conhecida livraria de Curitiba, a livraria
do Eleotério, atualmente fora de funcionamento. Este projeto,
idealizado pela artista plástica Marga Puntel, previa a
ocupação desta vitrine por duas semanas a cada artista
do projeto: Marga Puntel, Ana González e Luciano Mariussi.
Esta livraria foi escolhida pela facilidade de acesso e por não
ser um lugar já compromissado com as questões artísticas,
viabilizando assim um contato mais próximo do público
com a arte contemporânea.
O espaço da vitrine ficava longe de qualquer semelhança
com espaços destinados à arte, museus e galerias.
Esse aspecto foi desafiador. Senti que não poderia simplesmente
fazer uso deste espaço impunemente. Deveria tratá-lo
mais como uma intervenção em espaço urbano.
Como sempre fiz questão de estabelecer uma relação
entre o espaço que continha o trabalho e o trabalho propriamente
dito, me adaptar ao espaço disponibilizado traria certamente
um direcionamento na concepção do que viria a realizar.
Em vez de utilizar a vitrine como espaço
expositivo, decidi que não faria simplesmente um trabalho
para ser colocado em uma vitrine e sim utilizaria o espaço
todo da livraria para engendrar uma situação que
se relacionasse com um suposto público, que viria ver o
trabalho exposto e o público usual da livraria. Achei que
naquela situação seria um tanto complicado reter
a atenção do público para qualquer obra que
pudesse habitar aquela vitrine: uma parede de vidro que transparecia
todo o interior da loja. Como o relacionamento do meu trabalho
com as artes se fez via questionamento entre arte e público,
a estratégia de aproximação que escolhi foi
a compra da participação do espectador. No espaço
da vitrine foi instalada a seguinte frase:
"Entre Gritando Eu sei o que é
arte contemporânea e ganhe um desconto de R$ 2,00 reais".
Havia previamente feito um acordo com o
dono da livraria e esse desconto seria efetivado se o cliente/espectador
se dispusesse a realmente deixar a timidez de lado e entrar na
loja gritando. Houve muitas participações. Foi interessante
notar que esta indução a participação
por meio da compra, uma espécie de suborno ao público,
foi muito eficaz. Mesmo para quem não tinha a menor proximidade
com arte contemporânea pode ter sido induzido a pensar que
nesta frase residia uma inquietação. Pensar no que
estava escrito não contribuiria para ter uma opinião
sobre arte contemporânea, ou para esclarecer algum ponto
mais específico, mas revelaria que nesta frase poderia
haver um problema a ser discutido, ou ainda seria um assunto caro
para quem trabalhasse com arte contemporânea. De qualquer
forma, serviria para apontar um caminho de entrada nas questões
da arte contemporânea.
Durante as duas semanas que o trabalho ficou instalado, pude acompanhar
algumas das "performances" das pessoas que entravam
na livraria e tomei consciência de que deveria utilizar
esse procedimento com o público mais vezes. Fiquei sabendo
por meio do Sr. Eleutério, dono da livraria, que muitos
clientes entravam apenas para participar do trabalho, levando
pra casa um pequeno livro de valor não muito superior ao
da promoção/trabalho.
Esta estratégia, de compra de público, voltaria
a ser usada em outros trabalhos futuros.
Luciano Mariussi

VITRINE DO CAFÉ DO TEATRO
Em 2004, fui convidado novamente a participar
de outro projeto de vitrine. Dessa vez o espaço a ser utilizado
era uma vitrine especialmente construída para o projeto,
idealizado pelo artista plástico e cenógrafo, Fernando
Marés. Em uma grande janela de vidro do bar, foi construída
uma pequena sala, semelhante a um espaço de galeria. O
projeto previa a ocupação do espaço por 12
artistas no período de 12 meses. Novamente minha relação
com o espaço estava em questão, pois havia se modificado
novamente. Não se constituía como espaço
de arte nem tampouco como bar. Era quase que uma galeria instalada
dentro de um bar, tinha certa autonomia, pois estava isolada do
espaço interno do bar e sua visualização
poderia ser feita apenas pelo lado de fora.
Minha intenção foi novamente, a de romper com os
limites de espaço dado e interferir na rotina do bar. Como
o ocorrido com o trabalho anterior na livraria, deixaria na vitrine
uma das partes constituintes do trabalho, mas não seria
este o propulsor do trabalho.
Foi instalado na vitrine, com recorte em vinil, a seguinte frase:
"Seu Desenho Vale uma Cerveja"
Seguido da data do evento, 14/07/04 a 08/08/04
e ainda as normas para a participação da "promoção":
"Fica a critério do garçom
(e curador), aceitar o desenho ou não, de acordo com seus
critérios pessoais e subjetivos. Os desenhos aceitos farão
parte da exposição da vitrine."
Dentro do bar disponibilizei material de
desenho, papel, grafite, nanquim e pincel. Este material ficava
com os garçons e era oferecido aos clientes do bar para
a elaboração de um desenho em troca de uma cerveja.
A troca apenas seria efetuada caso passasse pelo crivo dos garçons,
que foram anteriormente instruídos a aceitar apenas o que
era realmente do seu agrado pessoal. Cada trabalho aceito era
exposto na vitrine, que aos poucos foi sendo preenchida por diversos
desenhos.
Neste caso, o contexto do trabalho gerou
uma situação metafórica dos mecanismos da
arte em geral. Inclusos no trabalho da vitrine havia artistas
dispostos a comercializar seu trabalho, alguém com poder
de julgamento crítico para validar os trabalhos (no caso
o curador / garçom) e um espaço de exposição
para dar vazão a esta produção e fazer a
intermediação com o público.
Arte é feita de escolhas subjetivas e estas escolhas passam
sempre por um inventário pessoal de referenciais que cada
artista, crítico, ou curador possui. Este trabalho reforça
esse aspecto por meio da nomeação de uma pessoa
qualquer como artista ou curador. Assim como em uma prática
duchampiana de deslocamento, que o faz o objeto ser valorado como
artístico, aqui pessoas quaisquer foram deslocadas de sua
condição normal, digo não artística,
para uma posição de detenção de poder
de criação.
Além das características comentadas nos trabalhos
anteriores, inclusão do espectador dentro da obra, humor,
interatividade, relação entre arte e espectador,
relação entre espectador e espaço expositivo,
estas vitrines contém um dado importante a ser relevado:
a compra da participação do público. Enquanto
os outros trabalhos como "Entre" e "Estética"
incluíam o espectador de forma impositiva, as vitrines
tendem a serem mais amenas nesse sentido, e ainda assim mais eficazes.
A participação do público se faz espontaneamente
e uma certa disposição para reflexão pode
ser notada.
Luciano Mariussi

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