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Pintura 1.
óleo e verniz sobre tela. 1,21 x 2,00 m. 2004
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Reflexo de espelho profundo. Homenagem
à Rossana Guimarães.
parede falsa em mdf, vidro, parafusos em forma de flor em
prata,
cone elíptico em alumínio galvanizado, revestido
de veludo preto e portinha em prata..
1,50 x 3,80 x 1,20m. 2002
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Equação 1/3
jacarandá da Bahia.0,17 x 1,19 x 0,01 m. 2004
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Poesia visual 1/10
1,00 x 0,12 m. 2002
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Paisagem 1.
guache sobre papel. 0,32 x 0,41 m. 2004
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Máquina 1/8.
fotografia. 0,79 x 0,535m. 2002
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Por trás do reflexo - carta
à Lílian Gassen
O que vemos só vale - só vive - em
nossos olhos pelo que nos olha. Inelutável porém
é a cisão que separa dentro de nós o que
vemos daquilo que nos olha
Didi-Huberman
Pareceu-me, Lílian, que você nos lançou, com
sua exposição, um convite e ao mesmo tempo uma provocação.
Um convite, claro, para o olhar, ou mais ainda, para pensar sobre
os limites tanto simbólicos quanto materiais da visualidade,
da visibilidade, da reflexividade. E uma provocação:
um absurdo desafio à nossa eventual capacidade de ponderar
sobre a relação entre o visto e a visão.
Quais são, afinal, os insólitos regimes simbólicos
que regem, em cada um de nós, as coordenadas que no meu
corpo relacionam a percepção, a linguagem e o juízo?
E como é possível compreendê-los, tais regimes,
sem afastar minimamente o olho da luminosa textura do mundo? O
olhar, visionário, é capaz de dotar suas imagens
de novos sentidos? Ou, ao contrário, é o corpo (e
portanto a experiência somática incessante que nos
envolve - aí incluída a arte) que se encarrega dessa
tarefa, quase à nossa revelia?
Essas perguntas, Lílian, todas elas, estão impressas,
e quase digo impregnadas nas suas obras. Elas, aliás, só
não são as suas obras porque é justamente
aí que se impõe, como já disse, o seu desafio
como artista, sua larga provocação estética.
Suas questões, a princípio universais, supõem
no entanto um lastro de inegável particularidade e intimidade,
uma representação por vezes obsessivamente narcísea
do seu - talvez do nosso - mundo privado. Há, é
claro, um certo grau de abstração e portanto de
distanciamento em relação ao sujeito central, experimental,
de suas interrogações. Não existem utopias
nem certezas: a história não nos permite atualmente
essas "facilidades" - e o espaço íntimo
que se universaliza no espaço público expositivo,
evidentemente, é um passo possível a se seguir.
Assim, que não se busque propriamente uma "unidade"
estética ou ideológica na exposição,
pois a identidade aqui, essa velha exigência iluminista,
é antecipada pela ambição febril da pesquisa,
mesmo que digressiva, e ainda que desviada e incerta. Há
sim, não se nega, uma série de objetos que, como
disse, giram sobre um núcleo de questões que atravessam
toda a variedade quase abissal de meios e suportes apresentados
(Desenhos, fotografia, pinturas, e objetos. Em tempo, confesso
que não compreendi bem o lugar, na exposição,
daquelas duas pequenas paisagens que, embora delicadamente coloridas,
soaram-me descontextualizadas.)
Entre as obras, agradaram-me em particular aqueles três
desenhos de mesmo tema e formato - as "naturezas-mortas",
se você quiser. Neles, a ligeira incompletude gráfica
de cada trabalho em relação aos demais nos demarca
a fragilidade das formas no tempo. Ali, desdobrada em devir, a
memória acaba retorcendo o espaço tríptico
num conjunto de imagens muito breves que, mesmo retidas nas retinas,
jamais estão inteiramente acessíveis: um conjunto
de formas cujo diálogo "interno", como sempre,
depende de nós. Nessa linha, cabe ainda menção
àquele seu dispositivo repleto de poesia e já exposto
em Nome, àquela bizarra luneta que é também
- e como pode? - um grande espelho, àquele encontro de
olhares sempre desnivelados e eqüidistantes, àquela
subversão à lógica perspética e monocular
das maquinarias visuais de Dürer. O convite ao olhar, portanto,
nas duas obras, não supera a tensão e no limite
a verdade de que os olhos, esses pontos no espaço, só
trabalham no tempo, vendo o presente apenas quando o passado se
cega ou vice-versa. A atualidade espacial do visível, assim,
só se constrói no tempo quando processa a invisibilidade
do passado. Interessou-me no entanto, e aliás sobretudo,
mais uma obra, igualmente já exposta em Nome. Nela, há
um rosto no ar. Em verdade, não bem um rosto, mas uma máscara,
e nem bem no ar, mas suspenso, preso à parede por uma faixa
de metal à altura de um corpo ereto. A faixa inclusive,
quando vista em perfil, desenha no ar o formato de uma cabeça
que se completa ao rosto. A máscara, tirada em molde de
um rosto real, é metálica e reflete o mundo. A obra,
embora tridimensional, dialoga também com a tradição
da pintura, seja pela fixação na parede que de certa
forma impõe uma espacialidade vertical e francamente antropométrica,
seja pelo privilégio aos planos fortes, a saber, o frontal
(a máscara) e o lateral (a cabeça). Nela há
também, e para lembrar Rosalind Krauss, uma certa "exterioridade",
uma conversa com o espaço literal, o nosso espaço,
aquele mesmo que também rodeia a obra em seus desvãos
e reflexos. O ligeiro espelhamento, por exemplo, nos impõe
a inexorável e luminosa presença do real, da mesma
maneira que a fita metálica, pela sugestão volumétrica,
também utiliza, por assim dizer, o ar como matéria
prima.
Vi ainda nessa obra uma bela contradição. Como idéia
- é curioso dizer - o gesto produtivo e poeticamente primitivo
de "moldar o corpo", claro, é repetível
ao infinito. Mas por sua vez como gesto produtivo, os inevitáveis
vestígios de um corpo que gera outro, o da obra, com todas
as marcas e sinais irrecuperáveis de um rosto, ele mesmo
literalmente irrepetível, são para nós a
certeza de que inexiste arcabouço retórico capaz
de congelar o tempo que escorre da matéria, uma vez que
o tempo, já em Aristóteles, é matéria
em movimento, e portanto perpétua transformação.
De tudo isso, entretanto, Lílian, e para voltar às
questões da sua exposição, a maior inquietude
nesta obra, nesta máscara, é aquela que refaz aquele
círculo, proposto por você, que vai do visto à
visão. Para o observador comum, ideal, abstrato, atento
mas desconhecido, a máscara é um símile de
um rosto qualquer, o retrato de um protagonista anônimo
cuja marca maior é, junto ao estoicismo da expressão,
a incapacidade de corresponder ao nosso olhar, pois que os olhos,
na máscara, estão para sempre fechados. Por outro
lado, para aquele que de algum modo reconhece na obra o rosto
da artista, a instigante idéia de um auto-retrato realizado
às cegas nos impõe a evidente tatilidade de uma
intervenção artística que, antes de ser visual,
ou mesmo conceitual, é também e sobretudo plástica.
E por fim, para aquele que vir seu próprio rosto refletido,
mesmo que muito indefinido e bruxuleante, na superfície
reflexiva da máscara, não deixará por certo
de notar a arquitetura escorregadia desse jogo: não é
possível, simultaneamente, ver a obra como máscara
e espelho, tampouco como retrato e reflexo. Somente o trabalho
conjunto e literalmente imaginário entre o olho e a memória
é que é capaz de situar, no mesmo espaço,
o visto, com sua virtualidade do passado, e a visão, com
sua presente e absoluta atualidade.
Assim, para quem quiser, está tudo lá, numa labiríntica
trama de olhares incompletos: o protagonista retratado, o auto-retrato
do artista e ainda o reflexo intruso e dissimulado do espectador.
Daí por diante, Lílian, não vejo outra saída:
num arco de muitos séculos, As Meninas, já revistas
por Foucault, reaparecem novamente.
Artur Freitas
dezembro de 2004

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