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Caminho sobre
o fio da lâmina
Fernando Lindote , artista plástico
A proliferações de situações
que acontece através do trabalho de Letícia Cardoso
se dá em diversos meios, como a pintura, o desenho, os
meios áudios-visuais e através de intervenções
tanto na esfera pública como privada. Desde suas primeiras
produções, Letícia transita entre meios como
quem procura atender as especificações de cada linguagem
sem se submeter a nenhuma, situando-se longe das especializações,
na medida de sua proximidade com a presença íntima
do indefinível de uma poética, que encontra a cada
desdobramento de sua obra.
Das oportunidades que tive de acompanhar
seu processo de elaboração de um trabalho, guardei
a certeza de uma atitude especial em relação à
produção de arte: Letícia trabalha sem rede
de segurança. Nada garante à artista que os interesses
aos quais empenha meses de dedicação e afeto irão
resultar em algo como o que costumamos ainda chamar de arte. No
começo, são pequenas impressões, anotações
de textos ou imagens percebidas com uma ênfase ligeiramente
diferente das outras tantas situações cotidianas.
A partir daí Letícia imerge por meses ou anos sem
saber no que irá resultar. Sem saber se desse mergulho
voltará com algo para partilhar conosco.
Letícia opera no espaço silencioso
onde a natureza, quase bruta, faz esgarçar nossos sistemas
de linguagem como ondas na margem.
A matéria de suas obras é
como um fio de uma navalha onde a menor ênfase pode desequilibrar
a tensão delicada do arranjo. Os assuntos de interesse
de Letícia, os materiais que utiliza, os procedimentos
que escolhe costumam ser os mais perigosos. O menor descuido pode
banalizar a idéia, qualquer grosseria ou pressa pode transformar
a obra sentimental ou moralista. Mas Letícia parece ter
a posse de um mapa secreto que lhe permite caminhar entre os perigos
sem cair nas armadilhas. É uma coragem delicada que conduz
os trabalhos de Letícia na sua aventura na linguagem, a
qual devemos acompanhar, tal como a artista sem nada nas mãos
ou nos olhos como defesa.
Uma maneira de dizer
Victor da Rosa é ensaísta,
bacharelando em Letras pela UFSC e editor da Mafuá, revista
de literatura em meio digital [ www.mafua.ufsc.br ]
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A artista plástica Letícia Cardoso, que recentemente
concluiu mestrado em Artes Visuais pela UFRGS, expõe seu
objeto "Primavera", em Florianópolis.
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Roland Barthes, em seu curso "Como
viver junto", fala das flores como figuração
de um toque poético que se volta para dentro - pulsão
que contém traços de uma delicadeza frágil,
perecível. As flores morrem em pouco tempo, e estão
fadadas a um desaparecimento que, quase sempre, sequer, é
percebido. Talvez por isso, por viverem no constante limite entre
vida e morte, próximas sempre do falecimento, essas flores
vivem com a intensidade de suas cores, a potência de suas
pétalas. Essas flores vivem em segredo.
A artista plástica Letícia
Cardoso, com seu objeto "Primavera", realiza um gesto,
faz uma aposta: alonga a vida dessas flores, adia seus falecimentos.
A artista captura pétalas do chão, caídas,
quase perdidas para o tempo, destinadas à destruição
- e aprisiona todas num cubo de gelo grande, oferecendo a elas,
ainda, um sopro de vida. Um movimento para as flores.
Letícia parece realizar um movimento
mesmo de olhar para o evidente, e percebê-lo - escutá-lo.
Barthes: "Ora, quando a coisa é 'óbvia', é
então que se deve atentar para ela (..)". Trata-se
de um recorte daquilo que não mais é visto, e que
perde sua vida justamente porque permanece abandonado aos excessos
do mundo. A partir do momento em que a artista retira uma pétala
da rua, do mundo, e devolve precisão a essa pétala,
enfatizando sua existência, sua cor desbotada que retorna
com a água, a artista devolve também sua potência,
e poesia. Ou, somente, uma proteção da delicadeza
que resta - as pétalas no gelo, protegidas contra o tempo.
As pétalas funcionam como metonímia
de uma primavera extraviada. Trata-se, portanto, não somente
de um alongamento da vida dessas flores, mas de uma recuperação
da primavera, sua poeticidade - um elogio da estação.
Ou um momento para as flores, para a primavera.
Quando o objeto é exposto, porém,
o processo é inverso. Se a clausura das pétalas
funciona como proteção, pode também, se permanente,
funcionar como opressão. É nesse momento, portanto,
que as flores devem ser abandonadas, e jogadas, mais uma vez,
às vontades do tempo. O cubo de gelo vai à exposição,
entregue ao acaso, e o calor o absorve. Outro movimento para as
flores.
A dureza do gelo cede, se desmancha, e
dá lugar às pétalas. O gelo, após
uma espera, deixa de ser pedra - e perde todo seu peso para uma
leveza líquida: passa a ser água, e depois desaparece.
É mesmo a experiência da espera que o objeto sugere,
e requer daquele que o vê - um tempo para revelar-se, e
para revelar a primavera. E um tempo para desaparecer.
Na medida em que o gelo vai derretendo,
as pétalas se dão a ver, recuperam o extremo de
sua vida - e derramada pelo chão, a água carrega
as pétalas numa conquista do espaço. Aqui o objeto
não interrompe, permanece sempre em atividade, afetando
o leitor com a fragilidade de seu deslocamento, num toque. Como
nas condições de primavera, tudo muda com uma cautela
que dispensa a velocidade, a pressa. E as pétalas, junto
com o gelo derretido, agora líquido, desenham um tapete
no chão, vão desenhando. Versos de e. e. cummings:
"me abres sempre pétala por pétala como a Primavera
abre / (tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa".
A artista, com seu gesto, parece enfatizar
mesmo um duplo movimento: da mesma forma que procura conservar
a vida dessas pétalas, devolver suas cores, seu gesto aponta
também para a impossibilidade dessa permanência.
Depois de algum tempo no chão, a água seca, e as
pétalas perdem seu ânimo, murcham aos poucos, escurecem.
E um círculo se estabelece, e fecha: do desfalecimento
à revelação e a um novo desfalecimento. O
que era proteção, agora é desamparo.
Nesse sentido, o calor é um elemento
importante e definitivo no processo. Como o verão, estação
que sucede a primavera, e que a devora, o calor, aqui, desmancha
a pedra de gelo e seca as pétalas, levando o objeto ao
desaparecimento definitivo. Depois de alguns dias em exposição,
o objeto vira sujeira, somente, e o que resta é o calor.
O processo a que o objeto é submetido
passa, precisamente, pela idéia de prolongamento, e realização
de uma vibração que necessita do tempo. A estação
é recuperada, dessa forma, não somente pelas flores,
mas também pelo movimento do objeto, numa permanente renovação:
a procura das flores, sua proteção no gelo, uma
nova revelação, seu desaparecimento. Agora há
invisibilidade.
Pois é mesmo invisível que
o objeto termina, ou não termina. Acabado o processo, a
primavera, não há mais nada material no espaço.
Há somente na imaginação, e na memória
de quem se deixou afetar. Alberto Caeiro: "(..) Mas a Primavera
nem sequer é uma cousa: / É uma maneira de dizer
/ Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes / Há
novas flores, novas folhas verdes / Há outras dias suaves
/ Nada torna, nada se repete (...)." Então a estação
se renova, numa outra "Primavera", porque a primavera,
no mais, é somente isso: uma maneira de dizer.
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