O LIVRO DAS SILHUETAS
Como interrogar plasticamente as relações entre
corpo e linguagem? Esta seria a pergunta por trás do
projeto O Livro das Silhuetas realizado em 2004 com a colaboração
da coreógrafa Sioned Huws.
Este trabalho explora possíveis articulações
entre a intensidade física e fragilidade da matéria
verbal. Acompanhamos as lentas mutações de duas
formas indefinidas até a configuração
de silhuetas humanas. Reduzido apenas as linhas de contorno,
os movimentos do corpo da dançarina Sioned Huws mostram
o próprio engendramento da figura humana. Esses corpos
vazados, esvaziados de sua identidade original, revelam e
convocam um texto cujas palavras, por sua vez, nunca são
totalmente legíveis. No decorrer do movimento algumas
palavras caem e a silhueta tenta recuperá-las reintroduzindo-as
em seu corpo. A dupla projeção remete à
configuração de um livro aberto, mas também
procura criar uma situaçã de falso espelhamento
que acentua a solidão das duas figuras no espaço
virtual do texto.??
2004
Ficha técnica
Produção: Le Fresnoy, 2004
Dançarina: Sioned Huws
Coreografia: Sioned Huws e Laura Erber
Câmera: Yannig Willmann
Pós-produção digital: Massimiliano
Simbula
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Laura Erber - Arrulhos como formas
Ligia Canongia, 2006
O senso comum e a percepção
de alguns notórios pensadores insistem em reconhecer o
visível como algo incrustado no tangível. Tratando
o mundo da arte ainda como mundo dos volumes e, portanto, confundindo
imagem e coisa, pecam pela redução do visível
à lógica imediata da coisa vista, pela redução
da imagem ao objeto.
O trabalho de Laura Erber, na série
das "Silhuetas", é o reverso desse parti pris,
pois, nela, as imagens renunciam às formas, o que contradiz,
por exemplo, a estratégia minimalista, em que as formas
é que pareciam querer renunciar às imagens.
Nessa série, não há
um objeto, uma coisa definida, mas a formação de
algo no tempo, como uma variável em si mesma, em situação.
O que vemos é pura latência espacio-temporal, por
meio de linhas em trânsito: uma forma que se experimenta,
vacilando sobre a própria possibilidade formal que virá
a ter um dia, talvez. Uma forma que avança, retrocede,
estanca e recomeça, mas não se encontra: um vir
a ser formal duvidoso, que põe em dúvida esse mundo
estável e eterno dos volumes e das coisas.
Em Laura Erber, a forma é, necessariamente,
experimental. Depende da experiência do seu fazer em processo.
Depende da troca intersubjetiva entre a sua aparição
vacilante e o sentido que terá para nós. Como arrulhos
de crianças que ainda não dominam a língua,
as silhuetas encontram-se no limiar da linguagem, como seres que
titubeiam frente à própria face que vão assumir.
As linhas não constituem corpos, e as silhuetas dançam
em perfis que engatinham no espaço, como que buscando o
seu reconhecimento no mundo das figuras. Em animação
cinemática constante, o fator temporal interfere diretamente
nessa imprecisão figurante, sendo essencial ao processo
de transmutação.
Entre o arrulho e o balbucio, as linhas
remetem-se ao nascimento das formas, àquele momento primordial
em que eclodem, e onde a linguagem ainda é muda. Ao frescor
de seus primeiros sinais, confusos, mas intensos, essas linhas
distendem-se na elasticidade do tempo e do espaço, sem
um destino preciso, como se escarnecessem do ponto final de todas
as frases. Preferem projetar-se na infindável possibilidade
de constituição das formas, sem corresponder a nenhuma
em particular, apenas descrevendo as articulações
que precedem os sistemas. Como diz a artista, o estado amorfo
desses desenhos fala da "necessidade de se despojar de certas
organizações discursivas e visuais de representação",
como "um mergulho no campo pré-linguístico".
O inacabado é o demônio formal
da história das representações, assim como
uma subversão aos esquemas racionalistas que nos conduzem
à ordem e às conclusões. Mas o inacabado
é também o estopim da angústia visual que
acaba por nos levar à busca das formas fechadas, como se
nós mesmos não estivéssemos nos desenhando
no caminho e à mercê da sorte. A obsessão
do informe como estado de propulsão criadora ronda esses
trabalhos; não como modo de produzir abstração,
mas o informe como modo de produzir não-coisas, a ver.
Ligia Canongia - abril de 2006.
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