1) Os trabalhos
da I Mostra RioArte e do Itaú Cultural são trabalhos
em vídeo. Você costuma trabalhar com vídeo?
Qual sua relação (a do seu trabalho) com as novas
tecnologias?
Sim tenho trabalhado bastante com video, penso que a relacão
da minha geracão com o video seja quase que natural, afinal
cresci vendo imagens em movimento, aconteceu que num determinado
momento o que eu gostaria de estar dizendo com meu trabalho não
se adequava mais a pintura (que é minha formacão),
aconteceu....foi tomando corpo, não foi uma decisão,
ou mera fascinacão com o meio, foi acontecendo.
As novas tecnologias são só ferramentas no meu trabalho.
2) Os dois tocam, entre outras questões,
a questão do relacionamento. Essa questão te interessa?
Por quais outras questões você se interessa?
Penso que a questão do relacionamento
seja a superficie do trabalho, o que me interessa mais é
investigar estruturas por detras das relacões, e de que
forma elas acontecem , estas questões se abrem em muitas
outras.....
After Venice é um trabalho que fala de colaboracão,
eu e Dorota Lukianska - artista plástica, decidimos fazer
este trabalho durante nosso ultimo ano de faculdade, e quando
decidimos trabalhar juntos, nosso ponto de interesse era uma a
investigacão de como ver e comprender nossos/novos processos.
O trabalho discute principalmente comunicacão. Comunicacão
entre duas pessoas, o acordo, o reconhecimento dos passos, o ajustamento.
A sincronia entre duas vontades e forcas propulsoras. Somos ali
dois artistas que se propoem a uma acão e a registramos.
Kidnapping Images discute a familia enquanto instituicão,
o que é publico, o que é privado, os silencios....
Listen to me- depoimentos silenciosos, tambem investiga o outro,
a identidade, a memoria. O que me interessa ali é a generosidade
do outro, em dividir comigo e depois com quem veja o trabalho,
parte do que acontece no momento em que aquelas pessoas estão
ouvindo a musica de suas vidas. São "retratos"
com memoria.
3) Você pode falar um pouco sobre "Kidnapping Images".
Ele também toca nessa questão de relacionamento,
memória, identidade... De certa forma, foi até um
reencontro com a sua irmã. Como foi o processo desse trabalho?
Quando ele foi exibido?
Em 1999, me mudo do Brasil para terminar meus estudos na Suécia.
Dias antes de minha mudanca, encontrei na casa da minha mãe
uma caixa contendo varios filmes super-8 feitos durante os anos
70. Os filmes percentiam e foram feitos por minha irmã,
morta 20 anos atras. Após a sua morte, por razões
diversas todo o equipamento desapareceu e os filmes foram silenciados.
Meu encontro com este material me fez repensar o meu papel como
artista e em segredo, trago comigo os filmes originais para Suécia.
O trabalho desenvolvido foi de reorganisar um novo filme, selecionando
fragmentos das 40h de super-8 originais existentes. Com os antigos
filmes reedito um novo filme de 1h de duracão. Com o novo
filme, retorno ao Brasil e mostro o material para a minha familia.
Durante a exibicão do novo filme uma camera escondida grava
o ocorrido.
O resultado deste trabalho é uma instalacão onde
duas grandes projecões postas frente a frente investigam
o ocorrido. Uma tela mostra a familia assistindo o filme. A outra
mostra um pequeno looping onde minha irmã danca infinitamente
com meu pai. A cena foi retirada de um baile de debutantes nos
anos 70. Investigo as relacões entre privado e publico,
a familia como instituicão e a forma como ela se apresenta/
relaciona com a sociedade.
Falo de uma familia generica, da familia enquanto instituicão,
dos silencios, dos apagamentos voluntarios ou não.
Este foi meu trabalho de graduacão aqui na Suécia
e foi mostrado na Konstfack (University of Art, Crafts and Design)
e também um dos trabalhos premiados pelo II Premio Cultural
Sergio Motta no ano passado. Estará sendo apresentado a
partir do dia 25 de maio no Paco das Artes em São Paulo.
4)Esse trabalho, e alguns outros(como the island diaries; 200
days of my life; letters to my father), tem uma carga pessoal
muito forte (mais evidente do que normalmente é em um trabalho
de arte). Queria que você falasse um pouco sobre essa experiência.
Como é lidar com isso para você?
A pergunta me faz pensar de Felix-Gonzales
Torres, Bispo, Louise Bourgeois, Leonilson, Barrio, Tracey Moffat,
e tantos outros....
Acho que nestes ultimos tempos a arte tem se aproximado da vida....a
minha memoria ou o que encontro ao meu redor é só
o inicio de minha investigacão, a operacão que acontece
depois é que faz que isto se torne um trabalho de arte,
de reflexão....
5)Você trabalha também
com desenhos? Como é trabalhar com vídeo e desenhos,
suportes tão diferentes...
Os desenhos vão até 1998
e fazem parte da minha trajetoria, falam basicamente das mesmas
coisas, que me interessam até hoje.
Não penso que estaria fazendo o que faco hoje se eles não
existissem, são uma parte do caminho, os suportes são
mesmo muito diferentes, mas para cada palavra, acredito, se deve
ajustar a fala.
6) Gostaria que você falasse um pouco sobre o início
da sua carreira.
Acho que me considero em inicio de carreira....com
muito trabalho anterior....
7) Como e quando surgiu a oportunidade de ir para Suécia?
Como essa mudança tem influenciado a sua carreira?
Vim para Estocolmo como estudante convidado
da Konstfack e resolvi terminar a faculdade aqui na Suécia.
Acho que antes de minha carreira, falaria que minha mudanca tem
influenciado meu trabalho, o que acho curioso é estar testando
meu trabalho em 2 paises completamente diferentes, de mentalidades
tão diversas.....
8) Qual a relação do sistema
de arte no Brasil e na Suécia?
O Brasil tem uma urgencia e uma multiplicidade
absurda, temos que construir a historia e queremos legitima-la
com muito mais dinamismo.
O que não temos, inventamos, apesar de toda dificuldade.
Isto vale tambem para arte, programas como Rumos Visuais por exemplo
não existem por aqui, é tudo muito mais rigido,
os curadores não saem pais afora para descobrir o que está
sendo produzido por jovens artistas, existe acima de tudo no Brasil,
a curiosidade. Queremos saber quem somos e que cara temos.
A Suécia é a tradicão, um pais extremamente
desenvolvido com uma politica cultural que tem apoio do estado,com
instituicões bastante fortes que apoiam e divulgam arte,
mas para fazer parte do grupo que recebe estes beneficios é
tarefa ardua e que requer tempo e muito trabalho,alem de que é
um pais pequeno e bastante homogeneo o que dificulta uma multiplicidade
maior.
9) Você tem outros projetos de
2002? No que você está trabalhando agora?
Estou indo a São Paulo nesta semana para a abertura do
II Premio Sergio Motta, no Paco das Artes e tenho uma exposicão
no Sergio Porto no Rio no inicio de julho onde estarei continuando
um work in progress (Listen to me-depoimentos silenciosos), além
de estar com 3 novos projetos em andamento.
Tropico- revista eletronica -UOL- 03.03
O audiovisual nas artes plásticas
"For the Eye altering alters all".
William Blake, "The Mental Traveller"
Na arte contemporânea, tanto no Brasil como no resto do
mundo, a linguagem fílmica do vídeo e do filme tornou-se
um universo muito amplo de pesquisa artística. Em grandes
exposições, como as dezenas de bienais internacionais,
a Documenta de Kassel, a Manifesta, entre tantas outras mostras
periódicas de arte, é comum deparar-se com corredores
de salas escuras que abrigam diversos tipos e formatos de projeções
de filme ou vídeo e outras mídias audiovisuais e
digitais.
A última Bienal de Veneza (2001), por exemplo, adquiriu
o apelido da "Bienal do vídeo", e a diversidade
de projeções fílmicas e de vídeo-instalações
reflete a magnitude desse meio de expressão. Havia desde
cenas dilatadas até o ponto de se tornarem imagens quase
estáticas, como o "The Quintet of the Unseen",
2000, do renomado vídeo-artista americano Bill Viola, até
propostas experimentais alternativas à própria linguagem
fílmica de cineastas e produtores multimídia.
Abbas Kiarostami, por exemplo, projetou a imagem dele e de sua
companheira enquanto dormiam, no chão do prédio
do Arsenale. Chris Cunninhgam, artista inglês conhecido
principalmente pela realização de vídeos
de música ("All is Full of Love", de Bjork, é
um dos mais célebres) apresentou, além de alguns
vídeo-clips, o filme "Flex" (2000) de corpos
nus entrelaçados numa grande tela.
Talvez a proposta mais surpreendente tenha sido a da parceria
de um cineasta canadense com um pintor português: Atom Egoyan
e Julião Sarmento, em "Close" (2000), projeção
em tela dupla que transfere o voyeurismo cinemático do
espectador numa espécie de sadismo perverso do diretor.
Experiências em tempo real
As imagens em movimento nos fazem retornar à experiência
do real, e é por essa capacidade mimetizante do filme ou
do vídeo que tantos artistas hoje concentram grande parte
de suas pesquisas nessa linguagem.
No entanto, os focos são muito distintos. A questão
a ser refletida aqui não é tanto o por quê
do surgimento da linguagem fílmica no circuito das "artes
plásticas", pois seria reduzir o problema a uma questão
de evolução tecnológica -como foi o caso
da fotografia e de suas decorrências digitais. Cabe analisar
os tipos de uso dessa linguagem, as diferenças de conteúdo,
expansão formal e conceitual, para nos situarmos melhor
dentro de sua própria lógica espaço-temporal,
tanto como "espectadores", críticos e criadores.
O elemento inerente ao filme, à "imagem em movimento"
, que o distingue da pintura, escultura, fotografia, entre outras
técnicas "plásticas" ou "visuais",
pode ser encontrado no tempo (1) . Jean-Luc Godard aponta muito
bem que, para os americanos, uma imagem é "picture"
(palavra que também serve à fotografia), enquanto
"movie" é o termo que consegue designar a noção
de movimento.
Esse é também o primeiro fator que separa o cinema
como o conhecemos e assistimos na sala escura de um auditório
-do longa-metragem- dos filmes de artistas, documentaristas, vídeo-artistas,
videomakers e até de produtores de cinema e VJ's.
Filmes e vídeos apresentados nos festivais de cinema underground,
de vídeo, e em galerias e outras instituições
culturais, são geralmente de "curta" duração.
Nas exposições "de arte", as projeções
encontram-se em "looping" contínuo, e o espectador
escolhe se quer assistir toda a projeção ou somente
dedicar sua visita a um fragmento aleatório -como se não
houvesse perda de narrativa nesta escolha.
O que não impede a realização de alguns filmes
intermináveis de Douglas Gordon ou Stan Douglas, onde o
tempo ainda é o ponto referencial dessa linguagem, embora
a lógica da duração seja um processo diametralmente
inverso.
Nesse sentido, a angústia que o espectador teria de passar
ao assistir "24 Hour Psycho" de Gordon (a duração
do filme original do Hitchcock, "Psicose", é
diferida para 24 horas) ou "Journey into Fear" (2002)
de Stan Douglas (são 30 faixas da mesma cena com duração
total de 7 horas e 40 minutos), aparece como contraponto paradoxal
às repetitivas pancadas contra a parede do protagonista
de "Wall Piece" (2000), do americano Gary Hill.
Um dos artistas hoje mais renomados no circuito internacional,
que trabalha com o filme, é o americano Matthew Barney
(leia sobre ele clicando aqui). Conhecido pela série "Cremaster",
o artista, altamente influenciado pelas filmagens do futebol americano,
criou um vocabulário fílmico único em forma
e conteúdo. Cada série dos filmes "Cremaster"
torce o fluxo da narrativa tradicional, desafia e questiona os
gêneros do cinema, misturando experiências autobiográficas
com o fascínio pelo esporte e sua exploração
como violência (partindo sempre do impulso sexual masculino...
incluindo também às vezes o feminino...).
Barney desenvolveu uma estética fílmica original
mas, como Douglas Gordon e Stan Douglas, entre outros, não
abdica do ponto de partida formal da tradição do
cinema, isto é: criar fábulas ou certos tipos de
narrativas a partir da literatura, da história, da psicanálise,
do pensamento sociológico, sempre tirando partido da infra-estrutura
do cinema, de suas equipes de filmagem, atuação
e produção.
A relação desses artistas com o filme se aproxima
do cinema, do mesmo modo que, inversamente, os cineastas Karin
Ainouz e Beto Brant no Brasil têm transitado nos universos
das artes visuais e de festivais independentes, até finalmente
realizarem seus (excelentes) longa-metragens.
Filme ou vídeo?
Muitos artistas escolhem utilizar o vídeo como registro-obra
de experimentos performáticos (em que utilizam o próprio
corpo simultaneamente como sujeito e objeto). Em geral, fazem-no
a partir de uma ordem subjetiva; outras vezes o próposito
é político e procura relacionar espaço privado
e público.
O artista norte-americano Bruce Nauman é a grande referência
nessa vertente mais experimental. A suíça Pipilotti
Rist encanta outras platéias. No Brasil, destacamos os
jovens Amílcar Packer (que discute a imagem em movimento
e seu posterior congelamento em fotografia em "still");
Fernando Lindote (que recontextualiza o ambiente para acolher
os resíduos de plástico mastigado em "Edax",
vídeo-instalação de 1999); Brígida
Baltar (com registros matéricos, fotográficos e
em vídeo de suas caminhadas ao ar livre em "Coleta
da Neblina"). São artistas que documentam processos
corporais ou viagens geopoéticas, utilizando o vídeo
como registro, como suporte final da obra e ainda como elemento
constitutivo de uma instalação "multimídia".
Há de ser pontuado uma diferença entre essa abordagem
e a pesquisa, até mesmo mais apurada, de artistas-cineastas
(ou cineastas-artistas?) que trabalham voltados para a imagem
tecnológica.
Para explicar isso, basta comparar o trabalho digital de Cao Guimarães,
bem diferente dos vídeos que realizou em colaboração
com Rivane Neuenschwander. Cao tem diversos documentários,
como "Hypnosis", "Between", mas também
um enfoque sociológico que se encontra entre o universo
do cineasta e do (vídeo)artista. Nessa mesma linha, Lucas
Bambozzi mistura vídeo-instalações com investigações
que têm um olhar mais "antropológico".
Por outro lado, os filmes do grande desenhista sul-africano William
Kentridge, produzidos em formato de 16 e 35 mm, mas geralmente
transferidos ao vídeo e DVD para eficácia expositiva,
de certo modo subvertem essa distinção técnica.
O ponto de partida do artista é sempre o desenho a carvão,
a história política de uma nação sofrida,
a literatura, e um certo enfoque romântico da "pequenez"
do homem em relação à natureza.
A prolífica produção de desenhos de Kentridge
passa ao filme por meio da animação digital, em
que os personagens ganham "vida" a partir do movimento
da imagem -são desenhos animados em preto e branco, que
transitam entre um mundo estético quase artesanal e a proximidade
com o mundo "real" a partir de um movimento paradoxal:
a sua virtualização digital.
A questão que emerge poderia ser assim formulada: qual
a diferença entre um (vídeo)artista e um cineasta?
E onde se insere o artista "visual" que também
utiliza o vídeo e/ou filme em algumas obras? Será
uma mera questão de inserção em um determinado
circuito?
Trabalhos em parceria
Junto com essa abertura tecnológica, surgem parcerias com
outros artistas, ou não, especialistas e leigos. É
o caso de Rivane Neuenschwander com Cao Guimarães em "Inventário
de Pequenas Mortes", filme que acompanha a força e
fragilidade de uma bolha de sabão na paisagem em movimento,
e em "Love Lettering", produzido por Rivane com Sergio
Neuenschwander (Museu de Arte da Pampulha de Belo Horizonte, 2002).
Nesse vídeo, pequenas palavras foram afixadas ao rabo de
peixinhos dentro de um aquário e, através de seus
movimentos aquáticos, viajam de um canto ao outro produzindo
poemas visuais de grande beleza e sutileza.
Outra jovem artista mineira, Marilá Dardot, produziu um
vídeo intitulado "Hic et Nunc" (Aqui e Agora)
baseado no conceito de aura de Walter Benjamin, em que uma mão
é vista escrevendo verbos em uma pequena lousa branca,
enquanto a outra os apaga, um verbo após o outro consecutivamente.
No mesmo ano, Nuno Ramos realizou, em colaboração
com Eduardo Climachauska, um filme intitulado "Luz Negra"
(tal como a exposição). O filme foi situado nos
arredores de Sorocaba, onde foram cavados grandes buracos dentro
dos quais foram inseridos cinco caixas de som com cerca de dois
metros de altura. Em determinado momento, elas são acionadas
e ouvem-se trechos do samba "Juízo Final", de
Nelson Cavaquinho.
A prática colaborativa parece adequar-se ao uso do vídeo
ou filme, para além da comodidade prática. É
um meio que se distingue por mobilizar o sentido de "equipe"
em todas as tarefas envolvidas (atuação, filmagem,
produção e edição) e pela possibilidade
de construir estudos de comportamentos psicossociais e relações
interpessoais.
A artista inglesa Gillian Wearing, por exemplo, apresentou na
25ª Bienal de São Paulo um vídeo que é
resultado de um exercício realizado ao longo de alguns
anos. "Drunks" retrata o estado quase inconsciente de
três bêbados numa rua de Londres, local que a artista
vem estudando há algum tempo e trabalhando com as vítimas
do excesso alcoólico e da depressão.
O jovem artista brasileiro Laércio Redondo, radicado em
Estocolmo, Suécia, estuda a comunicação entre
as pessoas em contextos diferentes. Em "Kidnapping Images",
um grupo de pessoas de diversas idades, que representa o estereótipo
de uma boa família, estão reunidas numa sala observando
as imagens feitas por uma irmã morta há duas décadas.
Se a condição temporal da linguagem fílmica
estabelece a principal diferença entre o cinema e o filme
artístico ou "independente", há outro
fator que merece ser mencionado, a saber: a integração
do espaço-ambiente à projeção. Em
"Art and Cinema" (catálogo da Documenta 11),
Mark Nash diz que nos últimos 30 anos as práticas
da imagem em movimento transformaram o espaço da arte contemporânea.
Estava se referindo ao espaço de exibição
de arte. Contrastando o espaço do cinema ao espaço
do "cubo branco", pode-se observar que o "cinema"
de galeria tornou-se "um cinema de fragmentos" (2) .
Além do conteúdo e vocabulário específicos
a cada (vídeo)artista, há uma distinção
primária estilística que se dá na escolha
de como expor o resultado final.
A utilização de telas múltiplas, sua dimensão,
os canais de projeção, locais e ângulos de
projeção, contextualização espacial
etc., são algumas das considerações que se
integram a qualquer filme ou video de artista hoje.
No entanto, para além dos fatores temporais e espaciais
da exibição de filmes e vídeos, percebe-se
hoje a capacidade de reconstrução sucessiva, a abertura
conceitual e formal que a linguagem fílmica possui.
Independente do circuito de atuação do artista/videomaker/cineasta,
a qualidade investigativa e experimental proferida por esse meio,
diferentemente do cinema "tradicional", abriu um novo
capítulo na história da arte. Talvez seja o "movimento"
estilístico mais paradigmático do momento histórico
que vivemos -em relação à difusão
incondicional da imagem que permeia a vida de cada um de nós.
1 - Ver Gilles Deleuze, "Cinema: A Imagem-Movimento"
e "A Imagem-Tempo" (1983), em que o filósofo
francês oferece uma interpretação alternativa
à teoria dominante psicanalítica e semiológica
em torno da linguagem fílmica. Para Deleuze, o cinema não
é uma linguagem sobre significados obscuros e metadiscursos
inacessíveis. Pode ser compreendida de forma mais direta,
na composição de imagens e signos, que são
pré-verbais em natureza. Nos dois volumes, Deleuze reflete
sobre a "imagem-percepção" (a forma básica
da imagem-movimento) até o "cinema, corpo, cérebro
e pensamento", que é uma das culminações
da imagem-tempo.
2 - Recentemente traduzido ao português e publicado no Brasil,
o ensaio do artista, escritor e diretor de filmes Brian O´Doherty,
"No Interior do Cubo branco - A Ideologia do Espaço
da Arte", Martins Fontes: 2002 (versão original em
inglês publicada numa série de três artigos
na revista "Artforum" em 1976) deu origem à expressão
"cubo branco", jargão referencial das artes visuais.
O livro analisa (e ironiza) a relação do espectador
e do artista com a obra de arte exposta no espaço da galeria
modernista, descrito como sendo quase sempre um cubo de janelas
lacradas, pintado de branco com luz vinda do teto.
Veronica Cordeiro
É artista plástica e crítica de arte baseada
em São Paulo. Formou-se em história da arte pela
Universidade de Edimburgo, Escócia. É colaboradora
das revistas "Arte y Parte" (Espanha), "Art Nexus"
(Colômbia) e "Trans arts.cultures.media" (EUA).
Revista Trópico, São Paulo - Brazil,
07.2003
http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1670,1.shl
dossiê
EM OBRAS
Ruído no politicamente correto
Por Laercio Redondo
"Globos", de Rivane Neuenschwander/Divulgação
A Bienal de Veneza aposta no pluralismo e nas contradições
das sociedades "glocais"
Chegar em Veneza é sempre um prazer. O avião se
aproximando, a Piazza San Marco, os canais... Ilha de ilusão
vista de cima. Mas ir embora é também um alívio.
Encanto tem tempo marcado, logo desaparece. Veneza nunca esteve
tão quente e úmida nos últimos 200 anos,
o que tornou a visita à 50ª Bienal mais exaustiva
que agradável.
Bienal e Veneza exibem muitos pontos em comum, principalmente
durante a histeria que precede a abertura. A atual edição
do evento (aberto até o dia 2 de novembro) talvez seja
uma das maiores de sua história. Além do Giardini
e das mostras no Arsenale do Museo Correr, a cidade foi invadida
por mostras paralelas por todos os cantos, como as chamadas Extra
50. Para agravar a desordem, alguns países têm seus
respectivos pavilhões espalhados no lado exterior, o que
dificulta muito o acesso. Sem contar a maior dificuldade a ser
enfrentada: a arte contemporânea pede "algo" mais
que mera contemplação.
A experiência é interessante: esta Bienal confunde
nossas idéias, não fecha seu significante numa única
visada. Depois da Documenta 11 (que acredito ter sido uma das
mostras mais importantes dos últimos 10 anos) e vivendo
na Europa já há algum tempo, parecia-me que o mundo
das artes andava por demasiado às voltas com os "ativismos
políticos". Posições excessivamente
claras, com pretensões definitivas, branco/preto, bom/ruim,
mas isto invariavelmente (ou quase) visto do alto da janela.
A Bienal do curador Francesco Bonami bagunça todos esses
valores. Mesmo para quem não compreende o que se pretende
com o tema "Sonhos e Conflitos - A Ditadura do Espectador",
prevalece uma opção pelo pluralismo e pela contradição,
por isso a necessidade de continuarmos discutindo o hibridismo
entre global e local (sociedades "glocais").
Apesar de duramente criticada em função da perda
de fôlego no debate conceitual, penso que esta Bienal introduz
um ruído no discurso do "politicamente correto",
discursos que ficavam girando em torno da identidade do outro,
seja ele cidadão da África, da América do
Sul, de algum país do Leste europeu. Alguém sabe
dizer como o artista deveria se comportar na "nova ordem
mundial"?
Em contraste com a Bienal anterior, na qual predominavam os vídeos,
este ano evidenciou a inclusão massiva da pintura, mesmo
nos pavilhões nacionais. Cabe perceber, em paralelo, a
revalorização da escultura; perceber também
como obras do "star system" permanecem fazendo figura
de centro.
É o caso do pavilhão brasileiro, que apostou no
certo, trazendo as obras de Rosangela Rennó e Beatriz Milhazes,
artistas reconhecidas internacionalmente. Milhazes mostra pinturas
e Rennó exibe a série "Vermelha", vista
em São Paulo na abertura do Instituto Tomie Otake. Com
uma montagem impecável, o conjunto desperta interesse.
As (boas) supresas
Os prêmios causaram surpresa. Foi o que aconteceu com o
Pavilhão de Luxemburgo, cravado fora do Giardini. Até
ocorrer a premiação, não havia sinais de
visitação. Na manhã seguinte, uma grande
fila de pessoas esperava para entrar. Mesmo que isso nos revele
os mecanismos de poder da crítica sobre o espectador, o
trabalho em si tem lá sua "poesia": na sala,
alguns objetos e dois vídeos magistrais da artista Su-Mei
Tse, de ascendência chinesa -tempo e silêncio. Afinal,
naquela Veneza quente e dispersa, faz diferença passar
e ficar um tempo por ali.
Outro susto: dois ingleses, Olivier Payne (23 anos) e Nick Relph
(25 anos) conseguiram levarar o Leão de Ouro para jovem
artista (isto é, com menos de 35 anos, para os padrões
europeus) mesmo que se dizendo nem um pouco voltados para a "nova
arte britânica": apresentam um belíssimo filme
feito de tomadas de paisagens urbanas, a periferia, Londres, vida
e morte.
"The Structure of Survival", com curadoria de Carlos
Basualdo, é uma das mostras paralelas mais interessantes.
Investiga a produção cultural frente à vivência
da crise. Com uma montagem em tom baixo, esse segmento pede uma
duração para que os trabalhos se entreguem -e nós
a eles. Nela, a participacão brasileira é simultaneamente
generosa e certeira, com Cildo Meireles, Hélio Oiticica,
Marepe, Alexandre da Cunha e Fernanda Gomes.
Dos pavilhões nacionais, o da Dinamarca é unanimidade.
Olafur Eliasson, impressiona, embora esbarre no excesso. Uma instalação
que mistura "instrumentos ópticos" com preocupações
ecológicas. O Canadá está maravilhoso. A
artista Jana Sterbak tem uma vídeo-instalação
com seis projeções exibindo a mesma cena, provocando
uma reflexão acerca da multiplicação da imagem.
Uma das coisas que fascina é saber que a câmera está
acoplada à cabeça de um cachorro e que a narração
termina com uma perseguição a um animal estranho.
Os anticlímax
A exposição "Paintings", curada por Bonami
no Museo Correr, pretende investigar a pintura a partir do Prêmio
de Rauschemberg, da Bienal de 1964 até hoje, chegando a
Murakami. Algumas boas pinturas, mas e daí?
Zarina Bimji, uma das participações mais emocionantes
da Documenta 11, está na "Fault Lines", com curadoria
de Gilana Tawadoros, mas falta-lhe fôlego dessa vez. Filha
de indianos, nascida na Uganda, a família foi expulsa do
país por Idi Amim em 1972. Este fato vai marcar todo seu
trabalho, que fala da memória e de seus apagamentos, exacerbando
o confronto com a impossibilidade de contar "o que de fato
aconteceu".
Na Documenta 11, o filme "Out of Blue" tinha uma força
enorme, apresentado com algumas fotos. Mostrava seu retorno à
Uganda após muitos anos, numa paisagem deserta. Fragmentos
do que restou deste lugar nos devolvem o abismo, pistas incompletas
de história. Já em Veneza, ver somente as imagens
montadas em "back light", soa quase um deslize comercial.
Outra mostra paralela, "Contemporary Arab Representations",
com curadoria de Catherine David, é, digamos, "correta":
uma ante-sala para leitura e uma enorme área jogada na
penumbra, com vários vídeos projetados em telões
presos ao teto. Aqui de novo a escala da Bienal incomoda, com
sua inerente pressão do tempo: como ver tanto em poucos
dias? Os bons trabalhos se perdem nessa lógica. David oferece
um difícil oceano de informações a ser desbravado.
Ora, como se entregar à leitura ou ficar horas diante dos
telões? Eis um dos problemas que a percepção
da arte contemporânea coloca seriamente ao público.
Talvez, em um outro contexto, uma mostra dessa natureza ganhe
a justa medida.
Revoluções e ziguezagues
O pavilhão oficial da Itália, "Delays and Revolutions",
com curadoria de Bonami e de Daniel Birnbaum, oferece um diferencial.
A mostra estabelece conexões entre gerações
e continentes. Fala das revoluções políticas
e artísticas e expõe uma historização
não-linear, muito mais um ziguezague de retornos e recorrências
do que uma progressão.
Nesse certame, Rivane Neuenschwander apresenta um trabalho simples,
no bom sentido. São cerca de 200 bolas de plástico
de diversos tamanhos, que ora recebem pintura automotiva, ora
adesivos plásticos. O conjunto evoca as bandeiras de 193
países, assim como as bandeiras de alguns territórios
e nações que não existem ou que estão
por existir.
Com um trabalho de arquitetura/escultura muito preciso, Gabriel
Orozco ganha o espectador no mesmo instante. Há um filme
imperdível de Andy Warhol, recentemente restaurado, "Outer
and Inner Space". Duas projeções: uma câmera
filma uma adolescente ao mesmo tempo que sua imagem é feita
por uma outra câmera. Bastante atual e complexo como toda
a obra desse pop do underground.
Felix Gmelin (Suécia) mostra "After Gerd Conradt´s
Farbtest". Mesmo formato de apresentação, duas
pequenas projeções: numa delas, rodada em Berlim
nos anos 60, no qual o pai do artista é um dos participantes,
jovens correm pelas ruas. Um a um, vão trocando uma bandeira
vermelha até que chegam à prefeitura da cidade e
instalam a bandeira na fachada central. No outro vídeo
a mesma ação acontece nas ruas de Estocolmo de hoje,
só que ao final a bandeira levada à prefeitura desaparece,
jamais aparecendo na fachada. O que nos diz estes dois filmes
quando apresentados ao mesmo tempo? Vemos estes homens correndo
simultaneamente, mas 30 anos se passaram entre eles. O que teria
mudado no nosso entendimento da palavra revolução
durante estes anos?
"The Everyday Altered", com curadoria do artista Gabriel
Orozco, fica "quase invisível" no meio de tudo
(talvez tenha sido proposital). Está localizada no galpão
anterior à entrada da "Utopia Station", e é
ultraconcentrada. Importante dizer que Orozco optou pelo não-uso
das paredes, pedestais, vitrines, vídeo ou fotografia,
mostrando também ai um grande diferencial do resto da Bienal.
O texto de apresentação no catálogo diz respeito
ao papel do artista. Fala da importância do trabalho diário,
de uma forma para descobrir novas maneiras de ver a vida e traduzir
isto para a arte. Interessante e sensível, especialmente
se pensarmos na Bienal como "espetáculo". Orozco
abre novas possibilidades, expõe uma vontade de dividir
uma dúvida com o outro.
"Clandestini", outra curadoria de Francesco Bonami,
traz bons momentos. Exemplo: a vídeo-instalação
interativa de Eva Koch. Espanhola de nascimento, que durante a
Guerra Civil foi separada de sua família e adotada por
dinamarqueses, a artista descreve o retorno depois de muitos anos
à sua cidade natal, atrás de pistas de seu passado.
Outro destaque, Shizuka Yokomizo, japonesa radicada em Londres,
também mostra uma video-instalação. O filme,
protagonizado por pianistas, é composto de duas projeções:
em uma delas as senhoras vão se intercalando, tocando sempre
a mesma peça, na outra projeção uma câmera
estática filma um fragmento de suas casas.
Já a "Utopia Station", curada por Hans Ulrich
Obrist, Rirkrit Tiravanija e Molly Nesbit, reúne, como
sempre os mesmos adjetivos: muita informação, em
meio a uma grande confusão. Difícil saber quem fez
o que, mas até que funciona. Parece um imenso laboratório,
um "work in progress" de propostas, algumas muito boas,
como a de Super Flex (Dinamarca) com uma "fábrica
de guaraná", uma cooperativa na Amazônia que
produz guaraná e lança seu libelo contra as multinacionais.
Anri Sala e Edi Rama (Albânia) mostram um filme sobre a
revitalização de um bairro por meio da pintura das
fachadas. Parte dos trabalhos pode ser acessada pela internet
(veja endereço no final deste artigo).
Vale a visita virtual, até mesmo para uma complementação.
Pois, se o espectador era ponto central da Bienal, qual o seu
sentido, se minha estadia de quatro dias não bastou para
ver a metade do que está exposto? O chamado "espectador"
realmente fica de fora, perdido, no conceito e no tamanho da mostra.
Permanece uma velha questão: para quem interessa ainda
o formato de megaexposições?
Laercio Redondo
É artista plástico. Vive e trabalha em Estocolmo
(Suécia).
Significant for the artistic process of Laercio Redondo
is a great interest for the seeing as well as the memory. In many
works, there is a series of intricate built-in points of view, both
from different parts of the room and separate moments in time. It
has to do (obviously) with the observation of the spectator when
he or she is confronting the work, but also the eye of the individuals
participating in the pieces, and finally the eye of the artist himself.
This richness of point of views, like in the video piece "After
Venice" , where it is furthermore reinforced by mirrors which
generates an almost mazy characteristic, creates an openness and
gives the possibility to move from one point to another. In a concrete
way this contribute to diminish a sole direction in the works, and
in a wider perspective, the comprehension of art and existence.
You are aware of , that what you see and how it appears whilst seeing
it, always depends on wherefrom it is observed. Laercio Redondo
frequently works with existing material, similar to a palimpsest
overwritten with a new text or an image. The paradox is the way
the image is both concealed and deepened by the fragments of the
world he chooses to describe. In some cases his works has an initial
story - in the way of diaries and super-8 films - which he found
and integrated in his own pieces. Often, these seems to form the
proper stimulation of creation altogether. It is with, or rather
on, the discovered expressions of another persons dreams, observations
and annotations that he creates his own remarks, and this is central
in his work. Through his process of work, different time layers
are blended - past and present has a tendency to merge - and personal
stories are brought forward to become a part of a broader context.
It is not possible to speak of Laercio Redondo's pieces without
also touching its physical form. They always have a very elegant,
precise and seductive appearance, which calls on the spectator
to rest and become fascinated by its content. The form is distinguished
by an unusual combination of sentimentality and coolness.
Stockholm, June 2001
Niclas Östlind
Curator, Liljevalchs Konsthall
I don't love you anymore. (Ya no te amo), DVD, 1,30"
en loop, 2001.
¿Qué implica que dejemos de amar?
Estrangeiro/Extranjero. Video instalación, 2,30"
en loop, 2003.
Cada verano, un grupo de aves migratorias se suman a la dinámica
de la vida en las ciudades europeas. Las formaciones de los pájaros
en su vuelo remedan los movimientos-traslados de personas en el
mundo. La condición aleatoria de visibilidad/invisibilidad,
trascendencia/intrascendencia, apariencia/realidad, convergencia/divergencia
se aplica al concepto de "extranjero" en cualquier lugar.
Pequeñas libretas de nota forman una pila cercana al video.
En ellas se lee la palabra "extranjero" por un lado,
y su traducción al portugués por el otro. Las palabras
"entran" (o salen) de ellas, a manera de animación,
cuando son hojeadas rápidamente. Esta transitoriedad presagia
la presencia efimera de las libretas en la galeria: el expectador
es insitado a llevarlas consigo (y por tanto consumirlas, aceptarlas)
como souvenir.
Estrangeiro/Extranjero se vuelve un homenaje a la obra de Félix
González-Torres.
Discursus. DVD, 40 seg. en loop, 2003.
Una escultura clásica, una imagen digital que se deforma,
una aparición o espejismo proyectados en la pared son,
en realidad, el simple reflejo de un rostro en el agua. En este
juego de apariencias, la imagen propia se vuelve -como en el Mito
de Narciso- el rostro de la persona amada. "I am gonna love
you like noone´s loved you" refiere, por un lado, al
amor masculino mientras que, por el otro, insita a la reflexión
acerca de los diferentes referentes que perfilan el gusto y el
deseo en la sociedad contemporánea, luego de numerosas
revoluciones y contrarrevoluciones sexuales acontecidas en el
mundo.
Remedio. Instalación de postales, 2004.
La pieza fue pensada para ser situada en un hospital psiquiátrico
sueco. Los diferentes "polvos" ligados a los sentimientos
escritos en cada uno de los recipientes conectan con la tradición
religiosa afrobrasileña, a la vez que funcionan como eficaz
alternativa a la forma de pensar racional de la sociedad occidental.
Como en muchas otras piezas del artista, el contexto en que se
emplaza "carga" esta obra de numerosas connotaciones,
como en el caso de Suecia, en donde nunca se llegó a emplazar.
"M e m o r y a n d f o r g e t f u l n e s s"
Ståndpunkt
Laércio Redondo
Magisterutbildning
Konst - Måleri, Konstfack
December 2000
Contents:
Memory and Forgetfulness page 3
Invisible objects page 4
The island diaries page 5-6
Sweden page 7
Kidnapping Images or the Blind spot page 8-13
After Venice page 14-15
Bibliography page 16
Memory and forgetfulness
To develop this essay, basically I will divide it in to two parts.
The work I executed in Brazil, where I primarily will write about
the work "The Island Diaries", it´s main points
of interest, the process under which it occurred and reflexions
concerning it. The following part deals with the development of
my work after my change to Sweden in 1999.
Basically, the subject of interest that orients my work continues
the same all along. The difference is that now I bring new means
and technologies to the discussion, I involve persons in my process
of work.
I was born in the south of Brazil, in a small and quite young
city lost in the middle of nothing. No cultural life, no museum,
no past, just only the perspectives of what the future could be.
Being a rather new country, Brazils history is created out of
necessities which make that the unimaginary becomes reality overnight.
I think it was more or less in this way that I had my first experience
with history of art.
I lived in an "invented" house, a tropical-baroque experience.
One of my first memories is the one of a cousin living with us.
An artist who did huge paintings, copying the masters like Velasques,
Caravaggio, Rubens among others. The interesting thing that intrigued
me the most, was that all the characters in the classic paintings
had their faces substituted so that in the end, they had the features
of my family members. Fascinated, I watched for hours the birth
of a small museum of absurdities in front of me. It took a long
time for me to understand this experience.
Invisible objects
The meaning of encyclopaedias profoundly interests me. Books
made to save the world. Organize them in their attempt to maintain
their entirety. "A work of reference that methodically explains
the facts, the doctrines and the results of human knowledge, universal
or specific."*1 There is something interesting to it, when
the world accumulates it´s time, histories and erasures,
through the books.
In Brazil, my work was an investigation of the possibilities to
incorporate drawings with objects that I found, abandoned and
deprived of their original context, emptied. Things such as old
maps, books, diaries - in short, objects forgotten by society.
In my family's range, in second hand shops, I looked for objects
that deprived of significance, become forgotten, erased. Abandoned
stories and fragments of lives. Through the incorporated drawing
in these objects - rejected and therefore invisible, I create
a new camp of significance/visibility. "However, the substance
of the work is not in the registration, the remembrance, not even
in evoking things nostalgically, but in fact by setting up a dimension
of the experienced moments, of duration. Time in memory does not
last, it dilates and expands memory transforms into the point
of departure and not of ending." *2
As so, two different times of memory are joined, the object's
and my drawing's. Together they reach an accordance, a projective
personal narration. Passed, present and future. The wish of what
occurred and what still is to come.
"The Island diaries"
I found, by chance, in the middle of other old documents belonging
to my father, a rather interesting book. When I started to look
through it, I recognised parts of what was the diary of the Peacock
island (Ilha do Pavão). This book/register was written
by a distant relative of mine. With a scientist's obsession, he
annotated everything that happened around him. Pluviometric measures,
floods, persons passing through the island. Everything that could
possibly change the surroundings. An effort to capture time and
maintain control over an area of precarious security.
I passed part of my childhood on this island which later disappeared,
submersed and flooded by the waters of "Rio Paraná".
This happened 23 years ago, when a huge hydroelectric dam was
built in the area. "In a symbolic sense, the island is a
miniature world. An image of cosmos, complete and perfect."
*3
My drawings were made on very fine Japanese paper and later sticked
on to the old manuscripts with paraffin. Attached to the wall
with needles, the light flows through the drawings so that our
writings are blended, and as so, they create an accordance, as
I call it. Passed, present and future, the old annotations establish,
organise a place in space, and my drawings destabilize this relation.
The thought of the sublime "travels between not only geographic
locations but also interior, ontological spaces, territories of
negotiation between the psychological and the social." *4
intervene in this work.
The disappearance of this place and this person was the starting
point of this work.
"The island diaries"
Drawings, 29cm X 21cm, 1998
Adriana Penteado, Contemporary Art gallery - São Paulo
- Brazil
Sweden
I left São Paulo, thinking about the possibility of confronting
my work in another country - Sweden. More than a simple change
of places, reside in another country is an experience of "dépaysement",
through voluntary exile, a condition of disorientation resulting
of new experiences.
Loosing yourself and setting out unforeseen routes, incorporate
ideas and unusual habits, you can construct a new narrative. Through
the new experiences, everything converges to the acquisition of
other methods of work. Through this, stimulating an investigation
of materials I did not dominate.
On one hand, you obtain concrete conditions to perform the work
(workshops, materials, studio visits e.t.c ), and on the
other hand, as I did, find a greater delay to encounter what corresponded
to the meaning of my work in this new environment. Like a reorganisation
of the language, communicating by recognizing the impact and the
value of my formation, these last two years contributed in a decisive
way to point out new possibilities of discussion concerning my
process of work.
Through the practice of new means, such as video and photography,
I recognized an urge to involve people around me in the process
in which the work is created. Art/life that blends through a more
complex form, my encounter with video opened new possibilities
to investigate from another viewpoint.
Kidnapping Images or the Blind spot
Before I left Brazil, I found in my mother's house a box full
of super-8 movies, made during the 70:s. The films belonged to
my sister, dead since 20 years ago. After her death, all the equipment
disappeared and the films were silenced.
My encounter with this material made me think about the possibility
to revise my role as an artist. Secretly, I brought the original
films with me to Sweden.
The work I developed was to organise a new film by selecting fragments
from the 40 hours of super-8 originals, and so I edited a new
film, 1 hour long.
With this new film, I return to Brazil and show the material to
my family. Secretly a camera is filming what takes place during
the exhibit of this new film.
The structure shown below explains the occurred event:
The result of the work is an installation were two life size
projections will be used.
One of the projections shows the family assisting the film, and
the other projection shows a scene from the first ball of my sister.
Instead of showing the original film I did with the old films
done by my sister and later re-edited by me, I extrude a small
part which shows a scene where she is filmed dancing with my father.
A loop where the couple dances infinitely whiles the family assist.
All the films are in slow motion, as so, the spectator is able
to make an investigation of the occurred. I relate this work to
a text where Foucault describes Velasquez piece "Las Meninas".
I begin with a few formal relations that connects the two works.
In the painting of Velasquez, our eye enters through a diagonal
from the right side of the painting, just like the camera that
films the family during the exhibit of the film.
In the background of the painting there are many works at the
wall, also a mirror that suggest the presence of two figures,
the king and the queen, in an unreal space.
In the Dutch painting tradition, the mirrors fulfilled the role
of reduplication, repeated what was given a first time in the
painting, but inside an unreal space. Modifying, narrowing and
rebending. "As with an effect, this nothing reflects something
that is found in the same space as itself, neither the painter
who turn its back against it, nor the characters in the centre
of the room." *5
In this case, the camera also records something that already occurred.
A space where the viewers assist a film. In the background of
the room, also many paintings. And once again, in this installation,
we enter in a space that no longer exists, as if we entered from
the other side of the mirror.
In the painting of Velasquez, " the mirror says nothing
of what already has been said" *6, and also in this video
installation, the images that the family assist, do not correspond
to what has been seen. An empty space is created in between the
images that are being shown, and what really happened.
"In the work of Velasquez, what he observe is therefore
twice the invisible. Since he is situated precisely in this blind
spot, this essential hiding place where our eye is taken from
us the moment we look." *7
Also in the installation, we find relations to this invisibility.
The films of my sister, which suppressed, become invisible. The
viewer who, as so, becomes a part of the work, when positioned
in front of this "mirror play" of complex realities.
In the video, as in the painting of Velasquez "we observe
a painting where the artist (in this case, the camera) in his
place, is contemplating us. No more than a face to face, eyes
that are surprised, straight looks, juxtaposed when crossed. And
yet, this tenuous line of visibility involves in exchange, a whole
net of complex uncertainties, of evasive changes. The painter
(the camera) only directs his eye towards us, in so far as we
enter the place of his motif. We, viewers are in excess. Received
by this eye, we are by him expelled, substituted by that, what
always was there." *8
The difference however between the two works, is in the relation
of the purpose of Velasquez painting. Whereas the king presents
the infant queen as a continuation of his history, the infant
as a successor to his dynasty, I discuss in my work the rupture
of this continuation. My dead sister and her images or recorded
memories.
History converted to fragments, voices of absence, erasures, memories
silenced for over twenty years. I think of the family as an institution
and how it wishes to be seen by society. Facts that many times
are accepted but not discussed.
I investigate memory, questioning if it isn't also the history
of forgetfulness. Voluntary or not.
1. "Las Meninas"
Velasquez, The Prado Museum - Madrid - Spain
2. Still from the video "Kidnapping images"
2001, Master project, Konstfack - Stockholm - Sweden
"Kidnapping Images"
View of the installation.
"After Venice"
The idea to this project arises through a collaboration between
me and Dorota Lukianska during our last year at Konstfack. We
decide to make a work together, where the main point of interest
in the cooperation is an investigation of how to see and understand
our/new processes.
"After Venice" was the name given to this work. Venice
as a starting point and also as an illusory place, where the seen
is only the memory of what once happened.
A couple dances in a mirrored room. Our movements are quadruplicated
through the reflected images. Fragments of reality, the mirrors
always show your "I" and the other you.
The piece discusses mainly the communication. Communication between
a man and a woman, the agreement, the recognition of the steps,
the adjustment. The synchronisation between two minds and two
driving forces.
Two projections show the dance. The couple moves from one side
to the other. The result of using two cameras or in other words,
two eyes that are joined.
Repeatedly the mirror has occurred in my work. I'm interested
by this unreal space which always shows in reverse. I think of
the video or the camera as a specie of a mirror with memory. A
mirror, which imprisons time, an investigation in the space of
forgetfulness.
Time captured in a machine recording images.
Laércio Redondo, Stockholm, December 00
"After Venice"
Still from the video, Stockholm Art Fair 2001
View from the installation, Stockholm Art Fair 2001
Bibliography:
1. Holanda, Aurelio Buarque
"Dicionário da lingua portuguesa",
Ed. Nova fronteira - Rio de Janeiro - Brazil, 1999
2. Moreira, Maria Carla de Araujo
"Arenas" (text from the catalogue),
Universidade Estadual de Londrina - Brazil, 1995
3. Chevalier, Jean
"Dicionnaire des symboles",
Ed. José Olimpio - Rio de Janeiro - Brazil, 1982
4. Spector, Nancy
"Felix Gonzalez-Torres",
The Solomon Guggenheim Foundation - New York - U.S.A., 1995
5-8.Foucault, Michel
"As palavras e as coisas",
Ed. Martins Fontes - Rio de Janeiro - Brazil, 1987
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