José
Bechara
Área de Serviço Casa Andrade Muricy -
09 junho a 11 de setembro de 2005
Curadoria: Agnaldo Farias - Assistente de Curadoria: Didonet Thomaz
Outras trabalhos
de José Bechara
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Outros
artistas no MUVI
José Bechara nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1957, onde
trabalha e reside. Estudou na EAV-Escola de Artes Visuais do Parque
Lage e começou a expor seus trabalhos a partir de 1992,
priorizando exposições em instituições
públicas e salões. Selecionado para a 25a Bienal
de São Paulo, em 2002, participou de diversas coletivas
no Brasil e exterior a saber, MAC-Museu de Arte Contemporânea
do Paraná, Curitiba (PR); MAM-Museu de Arte Moderna, Rio
de Janeiro (RJ); MAM-Museu de Arte Moderna, Salvador (BA); Culturgest,
Lisboa, Portugal; MEIAC-Museo Extremeño e Iberoamericano
de Arte Contemporaneo, Badajoz, Espanha; Instituto Tomie Ohtake,
São Paulo (SP); Diana Lowenstein Fine Arts, Miami (FL),
USA; Lurixs Arte Contemporânea, Rio de Janeiro (RJ); Galeria
Marília Razuk, São Paulo (SP), em 2004. Em 2005,
expôs Área de serviço na CAM-Casa Andrade
Muricy, Curitiba (PR); 5.a Bienal do Mercosul, Porto Alegre (RS);
The House project no 29.o Panorama da Arte Brasileira, MAM-Museu
de Arte Moderna, São Paulo (SP); ASU Art Museum, Phoenix
(AZ), USA; Galeria Carlos Carvalho de Lisboa, Portugal e A Chocolataria
- D'5 Espazo de Experimentación e Creación Contemporânea,
Santiago de Compostela, Espanha, com o lançamento do livro
José Bechara. Neste ano de 2006, participou das exposições
É HOJE na arte brasileira contemporânea: coleção
Gilberto Chateatubriand no Acervo do Museu de Arte Moderna do
Rio de Janeiro, Santander Cultural, Porto Alegre (RS); ARCO'06
Madrid, Carlos Carvalho - Arte Contemporânea e Marília
Razuk Galeria de Arte. Parque Ferial Juan Carlos I, Pavilhão
7 e Pavilhão 9, Madrid, Espanha; ArteAmericas, Diana Lowenstein
Fine Arts, Coconut Grove Convention Center, Miami (FL), USA; esculturas
da série Open house e fotografias do projeto A Casa, Celma
Albuquerque Galeria de Arte, Belo Horizonte (MG); lançamento
do livro A Casa, promovido pela Editora Francisco Alves e Lurixs
Arte Contemporânea, EAV-Escola de Artes Visuais do Parque
Lage, Rio de Janeiro (RJ); Surrounding Matta-Clark, Carlos Carvalho
- Arte Contemporânea, Lisboa, Portugal; SP ARTE - Feira
internacional de arte moderna e contemporânea 2006, Celma
Alburquerque Galeria de Arte, Pavilhão da Bienal de São
Paulo (SP); BâleLatina contemporary art fair, Basel, Suíça,
Galeria Diana Lowenstein Fine Arts - Photographs from the House
project and new objects from the series Open House, e Ok, Ok,
Let's Talk, Projeto Octógono de Arte Contemporânea,
na Pinacoteca do Estado, São Paulo (SP): este ano realizará
exposições na Lurixs Arte Contemporânea, Rio
de Janeiro (RJ); Galeria Marilia Razuk, São Paulo (SP)
e Diana Lowenstein Fine Arts, Miami (FL), USA. Sua obra tem sido
objeto de ensaios de Luis Camillo Osorio, Agnaldo Farias, Glória
Ferreira, Paulo Sergio Duarte, David Barro, Fernando Cocchiarale,
Paulo Reis e Maria de Fátima Lambert, entre outros... Possui
obras integrando coleções privadas e públicas,
a exemplo da Coleção Gilberto Chateaubriand no Acervo
do MAM-Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro (RJ); João
Satamine no Acervo do MAC-Museu de Arte Contemporânea de
Niterói (RJ), Instituto Itaú Cultural, MAM-Museu
de Arte Moderna, Salvador (BA); MAC-Museu de Arte Contemporânea,
Belém (PA), MAC-Museu de Arte Contemporânea do Paraná,
Curitiba (PR) e Culturgest, Lisboa, Portugal, ASU Art Museum (
Arizona State University Art Museum ), Phoenix, Arizona, Coleção
Ella Fontanall Cisneros, Miami, Florida, entre outros.
Fotografia: Didonet Thomaz.
Montagem de Núpcias
O
BREVIÁRIO DA VIOLÊNCIA - A poética de José
Bechara
De um modo ou de outro o percurso poético
de José Bechara sempre incluiu, ainda que obliquamente,
a violência. Em sentido amplo, capaz de encampar desde o
desencadeamento de uma energia como essa que encontramos nessa
exposição, com móveis domésticos atirados
pelo espaço expositivo, quanto o movimento discreto, o
entrechoque surdo que acontece nas dimensões mais sutis
da matéria. Esses vieses sutis da violência transpareceram
desde o começo, com o artista optando por uma linguagem
que embora abstrata, sublinhava o material, quase sempre lonas
usadas de caminhão, lonas bem gastas, que já vão
longe em sua vida útil.
O comércio das lonas entre artista
e caminhoneiro acontece com elas lonas estendidas no chão
e o artista avaliando as marcas deixadas pelos elementos e pelas
ações exercidas ao longo da árdua rotina
do material. Ele analisa as perfurações, arranhaduras,
escoriações, o desgaste de um material impiedosamente
exposto ao sol, vento e chuva, que se contrai no frio, dilatando-se
no calor; que trabalha atravessado por cordas que lhe comprime
de fora para dentro, lacerando-o até o ponto de rasgá-lo,
feixes de força obrigando-o a se moldar ao corpo dos volumes
compactos e regulares que embalam as mercadorias transportadas.
Volumes que forçam a lona de todos os lados, quando das
freadas, acelerações, subidas, descidas e curvas,
oscilando para lá e para cá, fazendo-a casca elástica
e resistente, como uma placenta que, ao final de cada viagem,
será esvaziada e mais uma vez preenchida.
Encerrada essa etapa, o passo seguinte
consiste em levar as lonas para dentro do espaço de trabalho.
Com suas raízes fincadas na história da arte e freqüentemente
identificadas com espaços semelhantes a câmaras íntimas
e resguardadas, o termo ateliê resulta inadequado para designar
um espaço que às vezes, em razão de obras
de grandes proporções, pode assumir dimensões
industriais, além de ser mais compatível para suportar
o impacto de uma química relativamente insalubre: a precipitação
controlada de um processo de oxidação que o artista
executa sobre ela. Seu método de trabalho compreende arranjar
camadas de diferentes espessuras de palha de aço carbono,
dessas empregadas domesticamente na areação de panelas
ou na raspagem da cera de assoalhos de madeira, sobre recortes
quadrangulares de lona. Posteriormente, sem tinta nem pincel,
o artista passa a molhar as camadas apressando a oxidação
que em função do calor e umidade do ambiente ocorreria
de qualquer maneira. A violência do composto água/ar
é tão grande que praticamente pode-se assistir ao
seu progressivo ataque à palha de aço, macerando-a,
dissolvendo-a, transformando-a, por sua vez, uma agente abrasiva
cujo efeito terminará por ferir a lona sobre a qual foi
colocada. O emaranhado capilar de ferro irá se metamorfoseando
em blocos pétreos marrom-escuros, fibrosos e quebradiços;
irá ainda se desfazer em pó, em mancha, em nódoa
que destruirá irreversivelmente a tessitura da lona, ao
menos em seus extratos superficiais. À memória que
a lona carregava de sua serventia protetora agora se soma a memória
do material pulverizado, que um dia jazia abrigado abaixo, dentro
do chão.
Mas o método pictórico de
José Bechara não se esgota aí. Ao alargar
o raio de controle sobre o processo, ele fixa, antes de proceder
à oxidação, longas tiras de fita adesiva
pela superfície da lona, criando faixas de espessura variável,
paralelas ou ortogonais entre si, que demarcam planos distintos
da tela. Trata-se de uma geometria feita a partir de gestos metódicos,
medidas exatas, ritmo compassado, nada semelhante à naturalidade
do processo de oxidação. Retirando as faixas após
a finalização da "queima", que o artista
pode querer mais intensa nesse ou naquele plano, nessa ou naquela
faixa, as telas, combinadas em dípticos e trípticos,
apresentam zonas - planos e faixas - nitidamente distintas, que
contrastam com os despojos do processo físico-químico.
Alguns deles são carregados de uma tonalidade de marrom
muito vivo, como zona ou feixe energético plenamente ativo.
A pintura, fala-nos o artista, ao contrário
dos que acreditam em refúgios, não se dá
sobre um campo branco e imaculado como o tecido próprio
para a prática da pintura, encontrável nas casas
comerciais de produtos artísticos. Se a pintura é
o resultado de uma ação sobre uma superfície,
então a lona dos caminhoneiros também o é.
Mas ainda, segundo Bechara, a pintura acontece na superfície
das coisas, nos rostos, nas pedras, nos edifícios, no céu,
no detalhe entrevisto na fruta antes dela ser mordida como também
depois dela ser mordida; na pele dos animais, como do gado que
cresce solto no campo, às voltas com os bichos e com as
cercas que lhes criam cicatrizes, até chegar a hora de
rumar para o matadouro e serem abatidos com um estampido preciso
e seco desferido na parte posterior da cabeça.
Foi isso o que nos indicou a sala do artista
na 25ª Bienal de São Paulo, ocorrida em 2002, quando,
a meu convite, integrou a representação brasileira,
e cuja parede de fundo era recoberta por uma grande pintura cinza,
a rigor um políptico retangular formado por 20 telas cinzas.
Recobertas com manchas escuras, que de longe pareciam matéria
protuberante, vistas de perto as telas revelavam peles cruas de
boi, pelos raspados, com as marcas indeléveis de sua existência:
cicatrizes produzidas por bernes, arames farpados, ferros em brasa,
além de sacos escrotais enrugados e pensos; o casulo/fonte
de vida do animal agora ressequido e inutilizado. Pintura ou o
que?
É possível então reconhecer
uma homologia entre essa crueldade incompassiva e a passividade
bucólica dos agradáveis chalés de madeira
da vila de Faxinal das Artes, assentamento serrano aqui do interior
do Paraná, palco de um programa de residência que,
em maio de 2002, propiciou a convivência, durante quinze
dias, de cem artistas de todo o País. Quinze dias passados
em meio aos chalés de madeira multicoloridos, encarapitados
em filas regulares ao longo de um suave declive. Jardim botânico
ao lado, lagos, muito verde, frio, comida boa e muito apetite.
Um cenário talvez demasiado calmo, inquietantemente tranqüilo
para alguém, como José Bechara que, não bastasse
sua natureza algo energética, sua extração
ultra-urbana, vinha da ansiedade provocada pela necessidade de
preparar sua sala da Bienal. Pois foi ali, como nos conta uma
seqüência fotográfica feita in loco, aqui apresentada
junto com a instalação composta por peças
do mobiliário doméstico submetida a uma espécie
de explosão e que aqui atravessa duas salas expositivas,
que o artista apareceu com essa idéia de que até
mesmo aquele pouco que temos para a nossa tranqüilidade,
o lar, a concha, o reduto seguro, mesmo isso, é um corpo
que sofre espasmos, acometido por pulsões perturbadoras,
cuja extensão dos efeitos não conseguimos aferir
ao certo.
Agnaldo Farias, curador.
Professor doutor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo-FAU,
Universidade de São Paulo-USP.
Didonet Thomaz, assistente de curadoria.
Mestranda em Poéticas Visuais, Escola de Comunicação
e Artes-ECA, Universidade de São Paulo-USP.
Durante a montagem da exposição,
enquanto Bechara trabalhava, fui fazendo anotações
a respeito do que denominei formações do artista.
FORMAÇÃO
Sábado: 04 jun., 2005. Horário: 14h30min. - 14h45min.
Anotações: Início da montagem da Lagarta
- da sala "J" para a "K": escultura periclitante
- vai sendo formada e os encaixes não são menos
periclitantes. Bechara faz de um jeito que fica firme, mas qualquer
um pode derrubar. O vidro de um armário reflete algum acúmulo.
Num estrado há etiquetas branco&azul coladas: "Esta
é a legítima cama Faixa azul"... "Ind.
"cama patente L. Liscio" S/A" - balcão com
vidraças encaixada numa cadeira sobre a qual tem uma mesa,
encostada num armário sobre o qual tem uma cadeira; armário
com mesa encostada, cadeira com estrado de cama "Faixa azul".
OUTRA FORMAÇÃO
Horário: 15h05min. Anotações: da sala 'J'
para a sala 'K', armários na parede ? deslocado para o
miolo da sala; compartimentos contrários - desconectados
na paralela; armário encaixado num compartimento, no claro.
OUTRA FORMAÇÃO PRÓXIMA
DA JANELA
Horário: 15h55min. Anotações: na sala 'J',
de baixo para cima, um colchão com vidraça em cima
encostado em mesa retangular, cadeira, mesa quadrada encaixada
em mesa retangular sobre a qual tem uma mesa quadrada; atrás
de tudo outra cadeira, várias cadeiras + de seis no final,
quatro mesas quadradas e uma retangular com as pernas para baixo.
MODIFICAÇÃO DA FORMAÇÃO
Horário: 15h55min. Anotações: na sala 'J',
formação próxima à janela: colchonete
Premium D-33 sobre o qual duas cadeiras estão deitadas
sobre o qual o colchão, mesa deitada com as pernas para
cima; mesa quadrada sobre tampo; mesa retangular sobre mesa quadrada;
sofá sem assento; cadeira enfiada no estrado de sofá;
cadeira no apoio; sobre colchão janelas com madeira e vidro.
A GRANDE FORMAÇÃO ENCUMPRIDA-SE
da sala 'J' para a sala 'K' para a sala 'L'. Anotações:
estrutura com vidro, armário - mesa sobre armário
vertical, cadeira embaixo da mesa, mesa embaixo da colcha - cadeira
liga com mesa sobre mesa embaixo de armário dentro do qual
há uma cadeira e um estrado ao lado da janela... uma mesa
em cima de duas cadeiras ao contrário, todas retangulares
em cima da qual tem a cama do 'Tutancamon', o 'Tuti', sobre a
qual há um colchão... as pernas da cama... um arquivo,
dentro do qual há uma janela.
OUTRA FORMAÇÃO: O EDREDON.
Anotações: edredom, linhas... Na experiência,
linhas verticais na parede em frente da janela - sala 'I'.
OUTRA FORMALIZAÇÃO
Anotações: radicalização da posição
do mobiliário, linha... menor curva ou não-curva,
definitivamente, da sala 'J' para a sala 'K'para a sala 'L'. Interrupção
da passagem da sala 'K' para a sala 'L'. Estudo de canto. Daqui
- sala 'I' para a sala 'J' - o que se vê é bom -
um trecho da LAGARTA, iniciando pelo armário envidraçado.
OUTRA FORMAÇÃO.
Domingo, 05 jun., 2005. Horário:11h30min. - 14h45min. Anotações:
canto da sala 'L', um colchão sobre o qual repousam três
janelas com vidro, duas gavetas, uma encostada em uma mesa com
as pernas na horizontal no meio das quais há um armário
de três portas, sendo aberta a porta do meio na qual há
uma vidraça, uma gaveta e uma cadeira; em cima de um armário
uma cadeira e uma vidraça.
NOVA FORMAÇÃO.
Anotações: os ensaios fotográficos periódicos
mostram visões 'panorâmicas entre paredes', detalhes
de obras identificadas a partir de determinados ângulos.
Olhando a LAGARTA, da sala 'K' para a sala "J' é possível
ver NÚPCIAS que ocupa uma parede da sala 'I'. Adiante dela
pode-se ver um pedaço de INSÔNIA I, na sala 'H'.
As imagens de NÚPCIAS são pedaços enviesados,
insinuações da sua totalidade; elas poderiam instigar
o espectador a querer ver mais... nesse jogo sútil, sinuoso,
de procura e encontro. De frente para NÚPCIAS, o que a
relaciona à COMENDO MARGARIDAS I, na sala da esquerda,
é a quantidade de fios, a tela, que vai se esvaindo na
parede branca. Depois de COMENDO MARGARIDAS I e II, o que se vê?
Aberturas e paredes que não mostram obra alguma, realçando
uma lajota geométrica, no chão... As conexões
intercalam-se com a passagem bloqueada pela LAGARTA, a qual atravessa
o espaço da sala 'K' para a sala 'L'. Escrevendo parece
uma abstração.
DIÁLOGO COM O PROJETO O ARTISTA NA UNIVERSIDADE
'na ÁREA DE SERVIÇO em 05
ago., 2005'
Projeto Artista na Universidade: 1. Como foi a assistência
curatorial dada à exposição de José
Bechara? Como você entende um processo de curadoria? 2.
Por que o título "ÁREA DE SERVIÇO"?
Tem alguma relação com o espaço de trabalho
do artista - uma possível associação de idéia
de ateliê - ou remete a um elemento essencial da poética
de Bechara: a casa?
Didonet Thomaz: A minha posição,
atual, como assistente de curadoria é de aprendiz de um
curador experiente como é Agnaldo Farias; numa exposição
de obras de um artista experiente como é José Bechara.
Nem por isso deixei de ser ouvida, porque esta é uma das
prerrogativas da assistência curatorial, da figura que se
pressupõe de confiança e que é chamada para
opinar e atuar de maneira multidisciplinar. A origem epistemológica
da palavra curador vem do latim curator - que significa "aquele
que cuida, tem uma administração ao seu cuidado",1
expandida para as artes plásticas, ganhando contornos diferenciados
e interessantes no Brasil, a partir da segunda metade (década
de 80) do século XX.2
Como se deu a curadoria? A partir de uma
primeira visita ao local (02 maio 2005) quando fizemos, sob a
orientação do curador Agnaldo Farias, uma distribuição
aparente das obras a serem mostradas. Mais tarde, permaneci ao
lado do Bechara do início ao fim da montagem, fazendo anotações
e fotografando e refletindo sobre as formações feitas
pelo artista, amparada pela pesquisa científica em arte.
Isso sem descartar a possibilidade de escrever sobre as questões
que me pareceram evidentes, formais ou estéticas ou postural-ética;
sobre os procedimentos referentes a divulgação das
informações preliminares até as mais profundas
a respeito da exposição que se caracteriza por uma
fisicalidade potente na escala proporcional ao site onde foi re-ligada-re-re-construída-re-re-montada.
Ao falar em reconstrução-desconstrução
observei um ponto de tangência entre a obra Open-House (Casa
Aberta, Nova York, 1972), de Gordon Matta-Clark (1943-1978)3;
no caso da ÁREA DE SERVIÇO, não se trata
de uma estrutura dentro de um contêiner industrial, mas
uma estrutura - mobiliário e 'coisas', enquanto sinônimos
de produtos como toras de madeira, espumas complementares e de
apoio às obras. COMENDO MARGARIDAS I e II, 1998, por exemplo
- nas salas da Casa Andrade Muricy-CAM com aberturas, algumas
sem portas, o que não deixa de ser um convite ao percurso
de um público que está sempre por vir e desaparecer,
sem deixar rastros na maioria das vezes, no espaço da oferta
do conhecimento. Há que se ressaltar a responsabilidade
social, o estimulo à inclusão de portadores de deficiência
visual no espaço expositivo o que gera um texto-vocabulário,
de sinais, além de etiquetas informativas sobre cada obra
exposta, todas necessárias, mas poluentes, na minha opinião.
Como fazer o percurso que se insinua? Olhando
para os lados, explorando a parte turva da visão, o canto
dos olhos. Fazendo e refazendo o trajeto espacial a fim de que
a re-ligação não permita uma falta de contato,
sequer; não decepcione o desejo de ver de um espectador
imaginário - ÁREA DE SERVIÇO não tem
uma leitura rápida. Ao contrário, obriga a refletir
não só sobre o espaço e o tempo, mas sobre
a energia enquanto despesa que não deveria ser desperdiçada.
Quando Agnaldo voltou (08 jun. 2005), ele
manteve a organização das obras; mas havia ainda
uma decisão a ser tomada e que ficou pendente; foi por
parte do artista e em relação ao arranjo na sala
'H': então, ali foram dispostas a Série INTERNO
E EXTERNO, 1984-2004 e INSÔNIA I e II, 2002, culminando
uma das pontas da re-ligação das obras com uma das
três entradas/ saídas da ÁREA DE SERVIÇO
- WORK AREA, que é como se chama esta montagem por ser
este um local de trabalho - "... é essa a idéia...",
nas palavras do artista. Também eu queria as obras naquelas
posições. Bechara e eu mantemos uma conversa sobre
sua obra desde que nos conhecemos, em 2002. Nem sempre é
uma conversa pacífica, mas nos enfrentamos intercalando
silêncios. Bechara ouve, o que é raro num artista
do porte dele. Penso que ocorreu um revival da criação
do mundo de onde surgiu esta versão de sua obra dentro
do sistema cultural contemporâneo.
Segundo Bechara "... não há
nada de inédito nessa exposição a não
ser o fato de estarem os trabalhos dispostos e expostos como estão...".4
A exceção que ele faz, referente a montagem, penso
que o artista quer dizer que as 'coisas' - produtos -, já
existiam e haviam sido mostradas, em outros locais como é
o caso de NÚPCIAS, 2002, durante a 25ª Bienal de São
Paulo, em 2002. Enfim, as obras apresentadas compreendem um período
de 1984-2005, numa escala grande, ocupando uma área de
360m2, aproximadamente, do andar superior da Casa Andrade Muricy
de acordo com o levantamento arquitetônico disponível.
O propósito inicial, salientado pelo Conselho Consultivo
da Casa que não é um Museu ou uma Galeria de Arte,
foi o de trabalhar com arte contemporânea; entretanto, o
código de ética a ser consultado poderia ser aquele,
circunscrito aos profissionais da Museologia, com as devidas ressalvas,
pois trata-se de um work in progress neste caso específico
da ÁREA DE SERVIÇO. Para tanto é necessário
ter preparo e adequação no processo de conhecimento
e de pessoal: a curadoria é uma ação grupal.
Do patrimonial ao não-patrimonial (efêmero), do enciclopédico
ao não-enciclopédico (que não abrange todo
o saber).5
De 04 a 09 de junho, início e fim
da montagem desta exposição, pensei exacerbadamente
em algumas palavras como 'desperdício da despesa' enquanto
sinônimo de 'energia' e/ou 'dinheiro', encontradas na obra
A Parte maldita, de George Bataille.6 Isto foi devido a função
da curadoria que é de administrar e conservar as 'coisas',
'produtos', disponíveis, seja do ponto de vista público
- o prédio, por exemplo - como do particular - a obra do
artista - com vistas à exibição pública.
Para mim, seria inadmissível ocupar um espaço sem
que cada parte estivesse matematicamente colocada em seu devido
lugar; em determinado momento, até as tomadas de luz provocavam
um ruído incômodo, de modo que algumas foram deslocadas,
sendo mais interessante deixar os buracos a descoberto onde se
podia ver o avermelhado dos tijolos e a argamassa do interior
da parede recoberta de tinta branca que, por sua vez, deixa ressaltar
sobre sua base as oxidações e macerações
em aço carbono sobre lona de caminhão usada (NÚPCIAS,
2002, volume e estrutura em linhas de algodão, irregulares,
dando uma idéia de inacabado, por exemplo) e/ou papel artesanal
(CADERNOS RÁPIDOS, 1999, parcialmente esvoaçantes
por causa da passagem de pessoas e correntezas de ar, por exemplo).
As primeiras anotações que fiz durante a montagem
dizem respeito a formações que o artista foi fazendo,
construindo e desconstruindo, principalmente na obra LAGARTA,
a mais extensa que foi denominada ARANHA, no Instituto Tomie Ohtake,
em São Paulo, 2004 e será denominada de VESPEIRO
(lugar de perigo), n' A Chocolataría, um edifício
do século XIX, na Rua das Órfãs, em Santiago
de Compostela, 2005-2006. De órfã diz-se da colméia
que perdeu sua rainha... os insetos emitem um som, o "choro
das abelhas"... Perguntei o que passava por sua cabeça
nesses momentos, mas ele não respondeu; diria que lutava
com ele mesmo em busca de um resultado 'bom'. Arriscaria dizer
que a paz nunca invade o seu íntimo, por conta da agilidade
do olhar, das expressões faciais, da musculatura ao caminhar
inconstante, ao pegar, levantar, acomodar, encaixar cadeiras,
mesas, colchões, armários, empilhando, de maneira
que o acúmulo tomou forma horizontal e verticalmente irregular,
do chão ao teto, dominando o espaço, aos poucos,
mas deixando respiros por onde é possível enfiar
a lente e ver as entranhas da obra. E, às vezes, encontrar
um ponto de luz que proporciona uma visão comprimida de
volumes geométricos, ásperos, lisos, em conflito
periclitante, reverberando a musicalidade provocada por ruídos
pesados, pelo choque da materialidade nos momentos da construção
da obra.
3 In: Catálogo do Instituto Valenciano
de Arte Moderno-IVAM Centre Julio González /Espanha, 1993,
p. 155-157. Observações: Open House , de Gordon
Matta-Clark foi reconstruída após a sua morte em
1981 (The New Museum, NY), 1985 (Museum of Contemporary Art, Chicago)
e 1989 (A.C.E. Gallery, Los Angeles), em locais e países
diferentes como em Valência/ Espanha.
4 In: BECHARA, José. Inéditos
[mensagem de trabalho]. Mensagem recebida por <didonetthomaz@teatromontono.art.br>,
em: 14 jul. 2005.
5 In: A ARTE DE MONTAR EXPOSIÇÕES.
Apostila de Roseana Novaes, julho de 2005 - 5.° módulo
do curso recriando o Museu, organizado pela Secretaria de Estado
da Cultura-SEC, Coordenadoria Estadual de Museus-COSEM, em Curitiba/PR,
27, 28 e 29 jul., 2005.
6 A Noção de despesa. In:
BATAILLE, G. A Parte maldita. Rio de Janeiro: Imago, 1975, p.
27-45.
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