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Sem título - Série
O caminho do bem
60 x 70 cm
Barbotina, grafite, folha de chumbo e fita adesiva sobre
papel
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Sem título - Série
O caminho do bem
60 x 70 cm
Barbotina, grafite, folha de chumbo e fita adesiva sobre
papel. 2006
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Sem título - Série
O caminho do bem
60 x 70 cm
Barbotina, grafite, folha de chumbo e fita adesiva sobre
papel . 2006
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Local de acesso, posto 6
Têmpera de barbotina sobre tela . 2006
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Sem título - Série
O caminho do bem
60 x 70 cm
Barbotina, grafite, folha de chumbo e fita adesiva sobre
papel. 2006
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Sem título - Série
O caminho do bem
60 x 70 cm
Barbotina, grafite, folha de chumbo e fita adesiva sobre
papel . 2006
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Acesso posterior
170 x 180 cm
Têmpera de barbotina sobre tela 2006
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Acesso pela máquina
160 x 180 cm
Têmpera de barbotina sobre tela. 2006
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Fernando Lindote/ Experiências
com o Corpo
Agnaldo Farias
Ao longo de vinte anos Fernando Lindote já acusou passagem
pela pintura, escultura,performance, fotografia,vídeo,
instalação,variedade que se estende ainda por experiências
em escala pública, trabalhos de inserção
urbana, como também por um elenco considerável de
trabalhos híbridos, obras que se valem da fusão
de dois ou mais suportes. A pesquisa tão persistente de
canais de expressão é por si só um aspecto
que garante ao artista uma posição muito particular
entre seus colegas de geração e mesmo entre os mais
jovens. Embora desde os anos oitenta tenha ficado mais difícil
encontrar um artista que se defina pela militância em um
suporte específico, fenômeno que de resto se justifica,como
queria Marcel Duchamp, na afirmação da arte como
uma atividade que se define mais pelo aspecto intelectual do que
por sua esfera artesanal, o fato é que Fernando Lindote
vai além do que se espera. Acostumado com sua prolífica
diversidade, seu público,ainda- injustamente-reduzido,
fica à espera dos previsivelmente novos rumos que ela imporá
às suas pesquisas, o que é o mesmo que dizer que
esse público está a espera de algo que sequer imagina
o que seja. Desde a célebre afirmação de
Maiakovsky, de que não existe conteúdo revolucionário
sem forma revolucionária, se espraiou da literatura às
artes visuais, o que se deu em proporções generalizadas
a partir dos anos cinquenta, ficou estabelecida a necessidade
de prospecção de novos suportes expressivos sem
o quê se estaria forçosamente derrapando em noções
já cristalizadas.. O curioso é que para alguns artistas
a pesquisa do suporte passou a ser, a um só tempo, o meio
e o fim da questão. Isto é, não se tratava
apenas de descobrir as novas questões abertas pelos novos
meios, mas de problematizar a fundo a função desses
meios. Experimentando a canônica pintura até a performance
documentada por vídeos, Fernando Lindote cai exatamente
no segundo caso.Sua vasta e polifórmica produção
parece indagar obsessiva e sistematicamente sobre a natureza de
cada suporte expressivo, sua condição corporal.
Não é por outro motivo,assim me parece, que seu
trabalho coloca o próprio corpo como um problema recorrente
a ser investigado sobre os mais variados aspectos. Fonte e instrumento
primeiro de toda expressão, o corpo deve ser analisado,
por exemplo,à luz dos gestos que ele produz, isto é,
sua capacidade de modificação do mundo. O desejo
de formalização que é intrínseco ao
homem, seu impulso em negar a natureza, termina por alterá-la
em níveis variados. ( trecho de texto de divulgação
da individual de Fernando Lindote no Instituto Tomie Ohtake em
2002}
Atrás das Imagens
Raul Antelo
Em toda arte existe uma violência anterior à institucionalização
de conceitos e valores, de códigos e sujeitos. Para que
um material expressivo diga as coisas de modo incomum ou, ao menos,
inesperado, é imperioso afastar-se, distanciar-se, da identificação
operatória com que sempre lidamos e atribuímos valor
e função a tais materiais. Assim, o alto modernismo
escolheu, na personagem do antropólogo, o agonista das
mesclas. Mesmo os românticos já viam, no intérprete
e tradutor, um hermeneuta de sentidos remotos ou primordiais.
Porém, quando esta figura mediadora tornou-se modelo de
operações previsíveis e disciplinadoras,
foi se impondo a necessidade construtiva de torcer e transformar
a linguagem com o intuito de criar novas idéias, simultaneamente,
singulares e múltiplas, capazes de abrir uma nova dimensão,
serial ou estratificada, em que se tornaria visível uma
nova imagem do pensamento.
Na obra de Fernando Lindote, essa energia se traduz, não
mais na forma inclusiva da mescla ascensional modernista, mas
no estilo de uma devolução abjeta ou, quando menos,
informe. Foucault tentou caracterizar a loucura da obra de arte
contemporânea como uma sorte de não-obra (la folie,
labscence doeuvre), uma instância inoperante
que assim traduziria a premissa a partir da qual Barthes também
se afastara da organicidade em direção ao texto,
repetitivo e maquínico. Deleuze, a partir dessas mesmas
idéias, chegou a conceber uma devolução interior
ao sistema, que consistia em tornar a dicção gaga
e a enunciação, estranha ou mesmo estrangeira, desterritorializada,
colocada numa condição exter, exterior ou extrema,
com relação aos usos e hábitos institucionais.
A não-obra ou inoperância nada mais é, portanto,
do que uma possibilidade, uma potentia, mas não uma potestas.
A potentia responde ao desafio de uma cena cultural atravessada
pela repetição e pelo clichê, em que a alternativa
consiste em obter uma imagem singular que não seja vazia
ou exaurida em relação a uma hipotética plenitude
do moderno. Isto porque o artista contemporâneo não
mais produz sobre uma cena vazia sur le vide papier mallarmaico
mas sua intervenção se dá agora numa
cena esvaziada, desértica, noturna. Nesse sentido, a singularidade
do novo consiste em apontar o deslocamento nômade de novas
energias que ora se estratificam em pontos antes inexplorados.
Sob essa perspectiva, o trabalho artístico contemporâneo
já não se ajusta ao luto e à melancolia modernas,
saudosistas com relação a um objeto perdido, cujo
retorno se estimula através da concessão de novas
auras personalizadas, subjetivadas ou mesmo na forma descarnada,
antisublime, do impessoal. Trata-se, admitamos, de um trabalho
secreto e celibatário, porém, isento de revelação
utópica ou teológica, uma vez que o fio vermelho
da história serve agora a Ariadna tão somente para
ela se enforcar, mas não mais para sair do labirinto.
Diz Deleuze em Diferença e repetição que,
ao abandonar o território da representação,
a obra de arte aprofunda o da experimentação como
ciência do sensível, i.e., a experiência já
não consiste no julgamento a priori do belo mas numa operação
de toque e de contato. Passamos, em suma, da estética transcendental
para a imanência da aisthesis. Foucault, resenhando essa
mesma obra, dizia que, se tivesse que contar o livro
de Deleuze, com suas próprias palavras, inventaria uma
fábula que diria mais ou menos o seguinte: Cansada de esperar
que Teseu saísse do labirinto, cansada de vigiar o seu
passo igual e de reencontrar a sua cara entre todas as sombras
que passam, Ariadna acaba de se enforcar. No fio amorosamente
entrançado da identidade, da memória e do reconhecimento,
o seu corpo pensativo roda sobre si mesmo.
De amarras soltas, Teseu, não dá, porém,
sinal de si. Corredores, túneis, caves e cavernas, encruzilhadas,
abismos, relâmpagos tenebrosos, trovões subterrâneos:
ele avança, coxeia, dança, salta. Na sábia
geometria do labirinto habilmente centrado? Não, mas ao
longo do dissimétrico, do tortuoso, do irregular, do montanhoso
e a pique. Quando menos em direção ao termo da sua
prova, em direção à vitória que lhe
promete o regresso? Também não; ele vai alegremente
em direção ao monstro sem identidade, em direção
àquele que não pertence a qualquer ordem animal,
que é homem e animal, que justapõe em si o tempo
vazio, repetitivo, do juízo infernal e a violência
genital, instantânea, do touro. E ele vai na sua direção,
não para apagar da terra aquela forma insuportável,
mas para se perder com ela na sua extrema distorção.
E é aí, talvez (e não em Naxos), que o deus
Baco está à espreita: Dionísio mascarado,
Dionísio disfarçado, indefinidamente repetido. O
fio célebre partiu-se, esse que nós julgávamos
tão sólido: Ariadna foi abandonada mais cedo do
que se esperava: e toda a história do pensamento ocidental
está para ser escrita. Não obstante, Foucault admitia
que essa sua versão de Diferença e repetição
não fazia jus ao livro de Deleuze. Ele é bem mais
do que a enésima narração do início
e do fim da metafísica. É o teatro, o palco,
a repetição de uma filosofia nova: sobre o palco
nu de cada página, Ariadna estrangulou-se, Teseu dança,
o Minotauro ruge, e o cortejo do deus múltiplo desata a
rir. Existiu a filosofia-romance (Hegel, Sartre); existiu a filosofia-meditação
(Descartes, Heidegger). Eis, após Zaratustra, o retorno
da filosofia-teatro; de maneira nenhuma uma reflexão sobre
o teatro; de maneira nenhuma um teatro carregado de significações,
signos, repetição de um acontecimento único
e que nunca se reproduz.
Para Foucault, leitor de Deleuze, esse teatro filosófico
que serve para pensar a intensidade as suas diferenças
livres e as suas repetiçõesnão é
fraca revolução em matéria de pensamento.
É recusar o negativo (que é uma maneira de reduzir
a diferença ao nada, ao zero, ao vazio, ao não-ser)
e é, simultaneamente, rejeitar de uma vez as filosofias
da identidade e as da contradição, as metafísicas
e as dialéticas, tanto Aristóteles quanto Hegel,
reduzindo os prestígios do reconhecível, e rechaçando,
de quebra, as filosofias da evidência e da consciência.
Em suma, equivale a recusar, enfim, a grande figura do Mesmo que,
de Platão a Heidegger, não cessou de fechar no seu
círculo a metafísica universal, para que se manifestem
diferenças insubmissas e repetições sem origem
que despertam a desdobrada força desestabilizadora da diferença,
fissurando e multiplicando o espaço da pintura como diferença
das diferenças. Alcançar, assim, o ser da linguagem
implica afastar-se do ser do discurso, i.e. da normatização
ou mesmo da normalização dos intercâmbios,
em nome de uma disseminação dos procedimentos tendente
a captar o rumor anônimo, o murmúrio preverbal em
que se assenta a singularidade múltipla.
Os fragmentos de matéria mascados, modelados e acumulados
por Lindote são, assim, a imagem de uma nova acumulação
crítica, mecânica ou impessoal, por meio da qual
a sensação renuncia a toda representação,
a todo julgamento, a qualquer referencialidade ou mesmo mimese.
Não há aqui um esquema que torne regular ou previsível
a passagem da intuição ao conceito. Prima, no entanto,
o espaço intensivo, através do qual o texto disseminado
questiona e chega mesmo a cindir o que a obra moderna antes unira:
sensação e percepção, intuição
e conceito, forma e conteúdo. O informe é agora
conceitual, ao passo que todo conceito, daqui por diante, sintetiza
(não mais harmoniza) multiplicidades inconciliáveis.
Saturado pela incessante disseminação de imagem,
o olhar, em certar obras de Fernando Lindote, regride à
boca. Per oculum ad orem. Jean Clair nos relembra que os olhos
evocam o rosto enquanto local privilegiado do olhar, com toda
a conotação sublime, quando não mística,
que a expressão comporta. Já na boca, a matéria
é triturada, metamorfoseada e até babada, como relembra
o poema de Oliverio Girondo: Es la baba. Su baba. La efervescente
baba. La baba hedionda, cáustica; ...........................................
lo que herrumbra las horas, lo que pervierte el aire, el papel,
los metales; lo que infecta el cansancio, los ojos, la inocencia,
con sus vermes de asco, con sus virus de hastío, de idiotez,
de ceguera, de mezquindad, de muerte.
Essa boca e sua baba nos projetam, enfim, ao rosto enquanto oralidade
e orifício, instância primeira, quando não
primitiva, em que pulsão critica e ingestão canibal
se superpõem inesperadamente. Com essa peculiar deriva,
constata-se a incontornável sensação da diferença,
apontada, pioneiramente, por Bataille, quando argumentava que
o olho devora. Trocando em miúdos, a matéria mordida
e amassada é algo que, como as palavras, sai da boca e
estabelece o regime do discurso, assim como o olhar fixa o regime
das imagens e o coloca em funcionamento através das palavras.
Ou seja, que através da fala essa coisa que, como
a baba, sai da bocanos colocamos, finalmente, atrás
das imagens. Atrás do pensamento. Uma suspensão
da razão. O neutro do sentido.
Raul Antelo
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