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Sem título. óleo sobre
mdf, 30 x 45 cm. 2005
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Sem título. óleo sobre
mdf, 30 x 45 cm. 2005
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Sem título. óleo sobre
mdf, 30 x 45 cm. 2005
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Sem título. óleo sobre
mdf, 30 x 45 cm. 2005
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Sem título. óleo sobre
mdf, 30 x 45 cm. 2005
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Sem título. óleo sobre
mdf, 30 x 45 cm. 2005
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FERNANDO BURJATO
Fernando Burjato é artista, com
uma intensa produção literária. Fernando
Burjato é escritor, com uma intensa prática artística.
Ainda que vaga, essa definição talvez introduza
com propriedade o processo criativo de Fernando. Tal dado faz-se
realmente necessário, na medida em que se constata que
ambas as atividades são de certa forma indissociáveis
em suas frentes de trabalho. Este caráter intercambiável
entre as duas linguagens pode ser aferido após alguma familiaridade
com sua obra; é denunciado, por exemplo, pela recorrente
incidência da palavra em sua produção artística
pregressa - que surge ora como elemento compositivo, ora como
elemento residual ou ainda como artifício de 'bloqueio'
a 'interpretações esteticistas' -, e na estrutura
modular, esquemática e aberta de seus contos, que dialoga
com sua pesquisa artística.
Essa tônica se mantém em sua incursão pictórica
- recente, aliás. As obras aqui apresentadas, é
preciso dizer, são antes de tudo a materialização
de uma investigação - algo obsessiva - que se confunde
com a própria existência de Burjato, delineando sua
poética: um desejo de registrar as pequenas idiossincrasias
da vida cotidiana, em que tudo seria passível de ser interpretado,
classificado ou ordenado segundo um padrão altamente subjetivo
de sistematização. Um certo exercício de
fetichismo, certamente, e que em graus diversos dormita na maioria
de nós.
Na pintura modular aqui apresentada, repleta de jogos e variações
cromáticos - antes não-figurativa que abstrata,
classificação evitada pelo artista -, este processo
se consolida como a cristalização de seu interesse
pelas propriedades compositivas da cor, que começa a pesquisar,
inicialmente, em pequenos trabalhos com bastões de massa
de modelar. Passa em seguida para o pastel e guache - operando
sempre sobre papel, por temor de investir esta fatura de uma 'aura'
indesejada - e finalmente para o óleo, onde a escala é
ampliada, fase (atual) da qual alguns resultados estão
aqui presentes.
Esta produção reflete e resume, em sua fatura e
apresentação, o descompromisso de Burjato com quaisquer
intenções esteticistas: sua obra não aspira
a nada além de sua existência autônoma pura
e simples, resultado que é de um processo em que a clareza
da dimensão processual emerge antes mesmo do próprio
pensamento.
Guy Amado
Fragmentos urbanos em ritmo teatral
FRANCISCO VENCESLAU DOS SANTOS
[07/JUL/2001]
O TEATRAL NA FICÇÃO CONTEMPORÂNEA: CABEÇA,
CORPO, CAVEIRA E ALMA
Fernando Burjato
Bom Texto, 144 páginas
Fernando Burjato, artista plástico
do Paraná, residente em São Paulo, entra na cena
literária prometendo bastante, tanto pelo interesse que
sua ficção provoca nos leitores quanto pelo novo
modo de ver coisas e pessoas pelo ângulo do imaginário.
O interesse de seus contos incide sobre o cenário urbano
da modernidade tardia - que é visto como um palco de teatro,
onde personagens anônimos desempenham variados papéis.
As cenas do cotidiano são representadas
por atores da classe média com suas aspirações
mesquinhas, e por jovens envolvidos em ritos de iniciação
sexual, em suas tentativas de ingresso nas atividades do mundo
dos adultos. Neste sentido, o contista se integra na área
de investigação de temas relacionados à grande
desilusão surgida depois do não cumprimento das
promessas das utopias ético-políticas dos séculos
19 e 20: a perda das esperanças com a emergência
do capitalismo tardio nos países periféricos, e
o desmantelamento do Estado do Bem-Estar Social.
A utilização da literatura para a reflexão
de idéias e questionamentos da própria ficção
constitui uma marca constante desta coletânea. As notações
reflexivas giram quase sempre em torno do cotidiano opressivo
da família urbana, da investigação da alma
de indivíduos solitários em suas residências,
clubes, ruas e escritórios. Jovens inseguros ensaiam o
desempenho de tarefas programadas pela cultura do consumo, como
se estivessem em salas de teatro. Diante da impossibilidade de
atingir o sonho artificial da felicidade burguesa programada pela
mídia, o mundo se transforma para eles num teatro do absurdo.
Teatro - Embora não revele explicitamente
marcas da influência dos ficcionistas brasileiros contemporâneos,
principalmente dos anos 90, seus contos utilizam elementos ficcionais
que rompem com as convenções das narrativas realista.
Neste particular, merece destaque a encenação teatral,
que passa a ser utilizada como técnica de composição
narrativa, como já fizeram Bernardo Carvalho e João
Gilberto Noll, na construção de romances, no fim
do século 20.
Um dos campos de sondagem da coletânea
Cabeça, corpo, caveira e alma é o insólito
via reciclagem de atitudes da cultura kitsch, a imitação
das relações artificiais de conforto, consumo fácil
e aspirações de uma felicidade desprovida de sentido
- o pastiche das banalidades dos estilos da subliteratura. Em
''Caliginefobia, o medo de mulheres bonitas'', Fernando desconstrói
uma série de frases feitas e eventos banais que desestabilizam
o cotidiano do ''homem sem qualidades''. A escrita de Burjato
não fica comprometida, porém, com a utilização
de clichês, porque o efeito do seu vôo é a
exibição da estranheza de um espaço urbano,
habitado por indivíduos sem nome que em sua rotina se vêem
confrontados com o imprevisto.
O volume merece ser lido tanto pelo interesse
que pode despertar nos leitores em busca de sentidos para os diversos
ângulos da vida contemporânea quanto pelo prazer que
apresentam suas ressonâncias kafkianas misturadas ao lirismo
das coisas simples, como o culto erótico do corpo combinado
com o exame das intimidades do espírito.
* Francisco Venceslau dos Santos é
professor de Teoria da Literatura no Instituto de Letras da Uerj
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