|

Des(re)conhecer, plotagem auto adesiva,
tinta acrílica, parquet de madeira
recortado e bolhas de acrílico s/ parede, 3x3x15
m, para Gentil Reversão, CCBB,
Brasília, 2001.Foto: Edgard César.
|
|

Detalhe de Des(re)conhecer, para
Gentil Reversão,
CCBB, Brasília, 2001.Foto: Edgard César.
|
|
acrílica, óleo e areia
180x120 cm 2001.
|
|

tinta acrílica e óleo
s/ tela, 180x120 cm, cada, 2001.
Fotos: Marcelo Feijó
|
|

acrílica e óleo s/
tela, 120 cm de diâmetro cada, 2001.
Fotos: Marcelo Feijó.
|
|

tinta acrílica e óleo
s/ tela, 180x120 cm, cada, 2001.
Fotos: Marcelo Feijó.
|
|

tinta acrílica e óleo
s/ tela, 180x120 cm, cada, 2001.
Fotos: Marcelo Feijó.
|
|

tinta acrílica e óleo
s/ tela, 180x120 cm, cada, 2001.
Fotos: Marcelo Feijó.
|
|

tinta acrílica e óleo
s/ tela, 180x120 cm, cada, 2001.
Fotos: Marcelo Feijó.
|
|

acrílica e óleo s/
tela 120x180 cm 2002.
|
|

acrílica e óleo s/
tela, 120 cm de diâmetro cada, 2001.
Fotos: Marcelo Feijó.
|
|

acrílica e óleo s/
tela 120 cm de diâmetro, 2001.
|
|

acrílica e óleo s/
tela, 180x120 cm cada, 2001 e 2003.
Fotos: Marcelo Feijó.
|
|

acrílica e óleo s/
tela, 180x120 cm cada, 2001 e 2003.
Fotos: Marcelo Feijó.
|
|

acrílica e óleo s/
tela, 120 cm de diâmetro, 2003.
Fotos: Marcelo Feijó.
|
|
|
O herdeiro e o método
de organização do mundo
Ninguém deve ampliar, além
do necessário, o número de entidades requeridas
para explicar algo (1)
Qualquer ciência [...] é
ciência só de proposições, e de proposições
conhecidas, porquanto só as proposições são
conhecidas. Todos os termos dessas proposições são
apenas conceitos, e não substâncias externas. (2)
Todas as coisas devem ser feitas
tão simples quanto possível, mas não mais
simples. (3)
Organizado em um canto do atelier, um glossário de figuras
vai se compondo e se modificando ao longo do tempo. Uma catalogação
das coisas do mundo. Um álbum de tudo. Mas esse é
um glossário sem verbetes, pois estes somente poderão
inscrever-se em outro lugar: entre a tela onde as imagens aparecem
- já incorporadas ao discurso do artista - e o olhar do
fruidor. Lá, elas reaparecem inseridas em uma criptografia.
Já destituídas da familiaridade da qual dispunham
em seu contexto de origem são matéria que todavia
requisita sentido, a ser construído por decifração.
Elas são recolhidas de revistas e da iconografia religiosa,
achadas casualmente, reproduzidas da TV, podem ser partes de croquis
ou de obras de outros artistas, ou de ilustrações
científicas. Trata-se aqui de localização,
de relações que a proximidade entre os elementos
instaura. Trata-se de sintaxe. Inseridas na tela, as figuras portam
a ambigüidade do conhecido que não se deixa ler. Colocam-se
como enigma à espera do contato decifrador... ou inventor
de nova lógica.
Este colecionador de imagens-palavras é um
herdeiro. Do pai, herda o ofício de anatomista diletante
- o livro repleto de lâminas onde os músculos, os
ossos, os órgãos e a corrente sangüínea
se revelam em traços pretos e vermelhos. Da mãe,
o ofício de geômetra amador, inventando uma nova
medição do mundo. Um estojo de veludo azul contém
o instrumento medidor: um compasso com uma enorme quantidade de
acessórios. Um compasso que, assim organizado, lembra instrumentos
cirúrgicos. O corpo pelo avesso e o mundo esquadrinhado.
Élder Rocha tem seu método de organização
do mundo: de um lado, o rigor da pintura e de outro, o distanciamento
da gênese simbólica de suas fontes, seu reinvestimento
como receptáculos, matéria pronta a acolher
versões. Se o sentido está na superfície,
há sempre o perigo de ser enganado pelos olhos. Herdeiro
também do "obstinado rigor" leonardiano (4),
não se deixa seduzir pelas facilidades dos materiais. Trata-se
aqui de pintura. E é da especificidade (e do alargamento
das possibilidades) da técnica que o artista lança
mão... mesmo quando produz objetos/instalações.
Na série "O Aparelho Sugador-Excretor", ele repete
exaustivamente, em telas e objetos, o mesmo sistema orgânico
de seu repertório anatômico-fantástico. Uma
repetição de um mesmo que "ao ser repetido,
se inscreve como distinto", não se refere à
reprodução já que a repetição
tem aí o estatuto de uma "intrusão conceitual",
de uma insistência significante. Os elementos aqui se repetem
para deliberadamente fazer aparecer o que não se mostra.
(5)
Elementos de difícil esvaziamento, tomados da simbologia
religiosa vão constituir o desafio ao método, em
"Solve et Coagula", série repleta de ícones
cristãos - o Sagrado Coração de Jesus; as
chagas; a espada; o Livro, depositário da verdade
transcendental, para aqueles que "sabem ler"; o sangue...
mãos, pés e olhos, sempre os olhos... martírio,
purificação, absolvição, santificação;
vermelho, azul, branco e preto. E o dourado, ouro...folha de ouro(que
ele leva para a série seguinte), a cor/emblema carregada
das ambigüidades das suas possíveis significações(às
quais ele agrega outras): Jerusalém era a cidade dourada
(a noiva de Deus) pela natureza pia de seu povo. Babilônia
(a prostituta) era a cidade dourada pela riqueza. As igrejas foram
revestidas de folhas de ouro para exaltar a glória de Deus...
Nada mais distante da idéia da pobreza evangélica
como única forma de enaltecimento da palavra divina. Etimologicamente
essa instabilidade do símbolo se revela: dourar é
dar brilho, realçar, enaltecer...tornar ditoso, alegrar...encobrir,
disfarçar.
Mas... não é disso que trata a série. Nem
essa, nem qualquer outra. O tema nelas é proposto para
em seguida ser desestabilizado, dissecado, apagado. Torna-se suporte.
Para "A Navalha de Occam", Élder transporta a
alusão à religiosidade. Mas, ao experimentar uma
redução radical do repertório de signos,
desmantela a possibilidade de sustentação de uma
versão religiosa. Aqui, os objetos tomam o lugar da representação
pictórica. Aqui a ausência do corpo provoca uma leitura
(paradoxalmente) claramente erótica. É uma instalação
de poucos elementos que se repetem em diferentes organizações:
seis bancos/estantes de madeira; o longo cabelo negro que nasce
dos bancos - intrusão da temporalidade na solidez da madeira
(pois o que cresce, morre). Em versões diferentes,
aparecem: as velas votivas brancas dentro dos copos de vidro,
as fitas/veias vermelhas, o assoalho chama/chão de tacos
de madeira, a tela dourada. Cada elemento carregado de significados
implícitos. Todos despossuídos ao interagirem uns
com os outros. Relações improváveis estabelecem-se
entre eles... compõem-se por pares: dois que podem ser
um... Mas há um terceiro elemento sempre presente, três
que são três isolados... impedimento da fusão
de dois (da cópula). "A Navalha de Occam" oferece
seu silêncio, suas partes que neutralizam uma a fala das
outras. Estruturas que devolvem ao fruidor a tarefa de compor
um (im)possível discurso.
"Des(Re)conhecer", a série mais recente,
apropria-se da diversidade das figuras do glossário. Incorpora
largamente as heranças do artista. Nesses trabalhos, o
recorrente é a estrutura, ela é que define
a série, não um tema identificável. O próprio
nome aponta para isso: fruir é exercitar leitura.
Nas telas retangulares da série, o cachorro desenhado com
durex preta é construído pelo método da pintura:
por máscara. Ao retirá-la, está constituída
a ilusão (a representação de que trata a
pintura). A mancha de tinta, em outro quadro, cuja massa sugere
uma gestualidade insuspeita em seu trabalho, é também
construída milimetricamente, a forma definida anteriormente
no papel vegetal. É artifício! E há o ideograma
que não representa. O cristal que é cruz, o jacaré
inflável que é letra, o sapatinho budista que é
lâmpada, o cabelo que é pontuação e
marca de objeto onde só existe a representação
bidimensional, o feixe de músculos que se decompõe
em puro grafismo. Élder propõe a image trouvé
como eco daquele objet trouvé dos surrealistas.
E há regras rigorosamente seguidas: não há
relação hierárquica entre as imagens; não
há tratamento pictórico do fundo, ou seja, o suporte
se deixa ver; a pintura é feita em três camadas;
as imagens matrizes são classificadas em tipos. Pode-se
pensar assim: quando não há mais nenhuma possibilidade
de estabelecimento de narrativa pelo tema, resta-nos a cartografia
estabelecida pelo método. Como um raio X da linguagem,
onde o que resta para se ver é estrutura. É ela
que propõe o percurso do olhar. É ela que se abre
para tantas narrativas, tantas...
Essas telas são expostas seguindo uma maquete, feita previamente,
em que as paredes da galeria recebem pintura e relevos, unindo
os trabalhos e transformando-os em partes de uma instalação.
Élder experimenta esta "invasão" do ambiente,
este deslocamento do espaço estritamente bidimensional,
há algum tempo. Se, em "Solve et Coagula", a
inclusão de um suporte diferente (o livro) - colocado frente
a uma parede de folha de ouro - e o intenso azul que dominava
a galeria, criavam um contexto provocador do trânsito entre
evocação e resistência a ela, nas diferentes
versões de "A Navalha de Occam", o artista conserva
a tela somente como uma citação entre os objetos
que compõem a obra. Convidando a uma leitura do conjunto,
esta organização parece, paradoxalmente, reforçar
o estatuto de suas partes constitutivas: o de serem pinturas.
Des(re)conhecer agora se desdobra em telas redondas (que ocupam
os espaços como pontuação de um texto
que se espalha) e em imagens que extravasam a tela e tomam a parede.
Reproduzidas em enormes dimensões, quase se desfazem em
estampa, se abordadas de perto. E elas se localizam em nichos
que impedem uma visão total de sua configuração.
É preciso distância, memória visual e imaginação
para recompô-las com o olhar (pois elas estão lá,
nesse espaço entre o olho e a pintura).
Sobre esse suporte/imagem, aparecem os assoalhos (herdeiros daquela
chama/chão) propondo-nos uma leitura paradoxal: partes
do piso, localizadas sobre a parede (e sobre o chão), que
representam as constelações (deslizadas do céu,
talvez). Seus pontos/estrelas, balizadores do contorno que dá
forma ao assoalho, são furos (o que faz lembrar da fantasia
infantil da gênese das estrelas: o céu noturno como
enorme colcha azul, cheia de furos, dos quais escapa a luz). Ou,
em uma leitura às avessas, sugerida em uma correspondência
do artista, essas figuras míticas, adivinhadas desde sempre
no céu, configuram-se no suporte/chão quando este
é baleado e mostra o que há por baixo dele.
Como ecos das novas telas, inúmeras bolhas de acrílico
se espalham pelo espaço. Em sua profusão, elas ousam
citar uma estética que remete aos anos sessenta, e nos
deixam com a incômoda impressão de nos avizinharmos
do kitsch (lição herdada da estética
pop). Mas, somente num primeiro olhar - porque, a partir daí,
elas jogam o jogo sintático da pontuação
e o jogo visual da anamorfose. Orientação
que desorienta. O número certo de elementos requeridos
por sua proposição: a de estranhamento do aparentemente
decodificado, a de re(des)conhecimento de seus nomes.
É o que se opera também nas paredes da nova instalação
(oferecidas pelo artista como suporte para as outras vozes), quando
avançam pelo chão e às vezes também
são invadidas por ele. Essa ausência de limites definidos,
essa narrativa polifônica - suas anotações
das coisas do mundo - nos revelam os lugares da pintura: no cérebro
e no olho do artista, no olho e no cérebro do fruidor.
Eis uma possível organização das coisas do
mundo.
Marília Panitz
fevereiro/outubro de 2001
1 - Aforismo de Guilherme
de Occam (1285-1349), franciscano inglês, pertencente ao
último período do pensamento escolástico,
herdeiro de Agostinho e de Abelardo, citado por Élder Rocha,
em seu projeto para "A Navalha de Occam". Este princípio
é conhecido como "a navalha de Occam" ou "lei
da economia" ou "lei da parcimônia", usada
ao longo do séculos - de Lutero a Galileu, de Newton a
Einstein.
2 - Guilherme de Occam, citado por Nicolas Abagnano em seu "Dicionário
de Filosofia", Ed. Martins Fontes, 1999, p.
3 - Albert Einstein, depois de Guilherme de Occam, citado no site
da Enciclopédia Britânica.
4 - Hostinato Rigore, divisa de Leonardo, citada por Paul Valéry
em sua "Introdução ao Método de Leonardo
da Vinci", Ed. 34, 1998, p. 13
5 - Idéias desenvolvidas por Jacques Lacan, a respeito
da compulsão à repetição, à
qual todo humano está sujeito. In, Kaufmann, Pierre, "Dicionário
Enciclopédico da Psicanálise - Legado de Freud e
Lacan", Jorge Zahar Editor, São Paulo, 1998, pp. 448-453
ESTRANHOS "PENSAMENTOS ESTRANHOS"
ou a possível catalogação do que não
pode ser dito
O que chamamos de mistério do mundo, mistério
da vida, não é em si mais
estranho que a incapacidade dos olhos de ver as costas do dono.
A nuca é um mistério para o olho
Paul Valéry
Criando uma anatomia poética muito particular, Élder
Rocha mapeia as regiões de percepção do cérebro.
E é na nuca - esta que os olhos jamais tocam, a sempre
suposta e jamais decodificada - que localiza esta faculdade de
saber do humano que resiste à articulação
pelo verbal...Ou seja, é a nuca que acolhe o que atravessa
o olhar deixando a cicatriz do que não foi apreendido pela
consciência.
Este anatomista é herdeiro de um outro, que um dia comprou
para si um manual, destes impressos em duas cores - preto e vermelho
-, onde vão se sucedendo as lâminas com os recortes
do corpo humano. Músculos, ossos, a corrente sangüínea...
A vida vista pelo avesso. E ele incorporou esse código
de desnudamento ao longo de sua obra. Uma incorporação
formal, distanciada da funcionalidade da representação
científica e inserida na sua narrativa criptográfica,
onde todo sentido está na superfície.
A outra herança está guardada em um belo estojo
de veludo azul que abriga, separa e expõe de maneira lógica
o seu conteúdo: um compasso com os seus mais de vinte complementos
a serem substituídos uns pelos outros, para as mais diferentes
funções. A mais absoluta precisão. O controle
quase absoluto do traço. Quase instrumentos cirúrgicos.
O arbítrio que se impõe ao gesto casual. Mas, ele
desconhece as funções dos instrumentos. Portanto,
as reinventa e incorpora à sua coleção de
fontes de imagem.
Na parede do atelier, um glossário de figuras - recortadas
de revistas, achadas casualmente, reproduzidas da TV - vem sendo
composto. Uma catalogação das coisas do mundo. Mas
seus verbetes terão de ser constituídos por quem
as olhar, já incorporadas ao discurso do artista. Lá,
nas telas, onde reaparecem (fielmente reproduzidas) inseridas
em sua criptografia. Articulando-se em linguagem que não
deixa constituir outros significados além daquele de sua
própria estrutura, as imagens se associam umas às
outras, orientam o olhar em determinado sentido, são claramente
identificadas. Mas não evocam. Ou melhor, ao serem associadas
neutralizam-se no que tem de evocativo.
E é esta familiaridade que as imagens isoladas evocam o
que provoca estranhamento no contato com seus quadros. Esta ambigüidade
do conhecido que não se deixa ler. Este deslocamento que
não permite reconhecimento mas que assombra por ser tão
próximo. Coloca-se como enigma à espera do contato
decifrador... ou inventor de nova lógica.
Nas séries em que trabalhou nestes últimos anos
- ele sempre trabalha séries, este é o seu método
de trabalho, sua ordenação do mundo -, parece já
estar apontada a questão (esta mesma questão que
atravessa sua obra) da constituição do discurso
que se distancia de sua gênese simbólica e se apresenta
como forma esvaziada de conteúdo à espera das possíveis
versões ( E não é assim que se constitui
a linguagem, se a pensamos radicalmente?) .
Em 1997, o Aparelho Sugador-Excretor repete exaustivamente, em
telas e objetos, o mesmo sistema orgânico de seu repertório
anatômico-fantástico. Mas uma repetição
de um mesmo que "ao ser repetido, se inscreve como distinto",
que não se refere à reprodução já
que a repetição tem aí o estatuto de uma
"intrusão conceitual", de uma insistência
significante. Os elementos aqui se repetem para deliberadamente
fazer aparecer o que não se mostra.(1)
Em 1998, Solve et Coagula vai trazer elementos de difícil
esvaziamento, pois vêm da simbologia religiosa, são
ícones como o Sagrado Coração de Jesus, ou
as chagas, a espada, ou o Livro, depositário da verdade
transcendental, para aqueles que "sabem ler", ou o sangue...
mãos, pés e olhos, sempre os olhos ...martírio,
purificação, absolvição, santificação...
dourado, vermelho, azul, branco e preto . Mas... não é
disto que trata a série. Nem esta, nem qualquer outra de
suas séries. O tema nelas é proposto para em seguida
ser desestabilizado, dissecado, apagado. Torna-se suporte. À
maneira da escrita imagética alquímica (ou da cabala),
as figuras (conhecidas) que compõem a narrativa são
embaralhadas. Exigem uma abertura para "fazê-las falar".
Criam a ausência de significados estabelecidos a priori
o que nos obriga a tratar a obra não mais como objeto de
leitura, mas como sujeito de uma fala que pressentimos.
Com A Navalha de Occam, de 1999, cujo nome faz alusão a
William de Occam (1285-1349) - de quem ele toma a epígrafe
da série "Ninguém deve ampliar, além
do necessário, o número de entidades requeridas
para explicar algo"-, radicaliza a concisão de signos
dentro de um discurso eloqüente. Aqui, os objetos tomam o
lugar da representação pictórica. Instalação
de poucos elementos que se repetem em diferentes organizações:
o banco/estante de madeira, com 1,2 m de altura; o longo cabelo
negro que nasce do banco; as velas votivas brancas dentro dos
copos de vidro, que são seus recipientes. Em uma outra
versão, há a fita vermelha que eventualmente amarra
os outros elementos ou se espalha por um fundo também vermelho
- uma corrente sangüínea inserida, talvez, nesses
objetos ambíguos que revelam a temporalidade (e a evanescência)
do orgânico, pois, tudo o que cresce, morre. Cada elemento
carregado de significados implícitos. Todos despossuídos,
emudecidos, ao interagirem uns com os outros. Nas obras dessa
série (nomeadas pelos seus números, adicionados
a o nome da série : Navalha de Occam 1, 2, 3... ) o que
se altera é a localização e a associação
dos elementos: de onde crescem os cabelos; em que lugar estão
as velas; quantos bancos constituem a obra; quando a fita virá
dar seus laços. O que então está sendo dito?
Se o sentido está na superfície, há sempre
o perigo de ser enganado pelos olhos. Esta é a questão
que a última série vem sintetizar. Herdeiro também
do "obstinado rigor" leonardiano (2) , Élder
não se deixa seduzir pelas facilidades dos materiais. Trata-se
aqui de pintura...e é da especificidade ( e do alargamento
das possibilidades) da pintura que o artista vai lançar
mão...Rigorosamente.
Afinal, trata-se de método.
O cachorro desenhado com durex preta (é assim que se lê
a imagem) é construído pelo método da
pintura: delimita-se os contornos com fita adesiva e o interior
(que constitui as linhas do desenho) é pintado.
Ao retirar a máscara, está constituída a
ilusão (a representação de que trata a pintura).
A mancha de tinta, em outro quadro, cuja massa sugere uma gestualidade
insuspeita em seu trabalho, é também construída
milimetricamente, a forma definida anteriormente no papel vegetal
que é o primeiro estágio do quadro. É artifício!
E há o ideograma que não representa. Se pensarmos
na concepção dessa escrita como uma combinação
(uma cópula) de elementos representáveis por imagem
(substantivos concretos como olho, água, etc. ...) de forma
a podermos representar conceitos, ações, abstrações
(como o choro, por exemplo), este ideograma - inventado a partir
de uma estampa de quimono japonês- pode figurar uma síntese
desta escritura que ele propõe: linguagem sem código
pré estabelecido, forma que desafia o olhar do fruídor
a construir sentido.
O cristal que é cruz, o jacaré inflável que
é letra, o sapatinho budista que é lâmpada,
o cabelo que é pontuação e marca de objeto
onde só existe a representação bidimensional,
o feixe de músculos que se decompõe em puro grafismo.
Élder propõe a image trouvé como eco daquele
objet trouvé dos surrealistas. Mas o que parece se operar
aqui é algo que ele herda do readymade duchampiano: a ação
deliberada, calculada, de desafio às fronteiras entre reconhecimento
e vertigem alucinatória. E, do pop, herda a apropriação
do imediatamente legível num contexto de resistência
à legibilidade.(3)
E há regras rigorosamente seguidas: não há
relação hierárquica entre as imagens, no
que diz respeito à escolha e à associação
(um detalhe reproduzido tem a mesma importância do todo,
um olho de um desses quadrinhos japoneses, o mesmo estatuto de
um Mercúrio retirado de uma antiga carta celeste); não
há tratamento pictórico do fundo, ou seja, o suporte
se deixa ver; a pintura é feita em três camadas;
as imagens matrizes são classificadas em três tipos.
Pode-se pensar assim: quando não há mais nenhuma
possibilidade de estabelecimento de narrativa pelo tema, resta-nos
a cartografia estabelecida pelo método. Como um raio X
da linguagem, onde o que resta para se ver é estrutura.
É ela que propõe o percurso do olhar. É ela
que se abre para tantas narrativas, tantas...
Élder diz que pinta pensamentos. Seu sobrinho, ao receber
esta resposta à sua pergunta sobre o que seu tio pintava,
declarou: " pensamentos estranhos !". Esta parece ser
toda a extensão de sua aventura. Confrontar-se com isso
que, por ser já sabido por algo em si, apresenta-se como
totalmente outro. Não há transcendência, significados
ocultos. Há sim, a arbitrariedade da linguagem... E um
falante que sabe não ser senhor da sua fala.
Talvez como aquele personagem de Guimarães Rosa, no conto
O Espelho que, depois de muitos anos a refletir
sobre a sua imagem refletida ( "A alma do espelho - anote-a
- esta metáfora" ), relata:
E...Sim, vi a mim mesmo, de novo meu rosto, um rosto; não
este que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto
- quase delineado, apenas - mal emergindo qual uma flor pelágica,
de nascimento abissal... Só.(4)
Não se trata, pois, de recuperar
um olhar virgem, de ingenuamente acreditar no impossível.
Trata-se de, a partir de um modelo de estrutura, desafiar o olhar
com o que não tem lugar...embora sempre tenha estado aí.
De des(re)conhecer o já conhecido. Talvez.... abrigado
em nossa nuca.
Marília Panitz Silveira
Novembro de 2000
1 Idéias desenvolvidas
por Jacques Lacan, a respeito da compulsão à repetição,
à qual todo humano está sujeito. In, Kaufmann, Pierre,
"Dicionário Enciclopédico da Psicanálise
- Legado de Freud e Lacan", Jorge Zahar Editor, 1998, pp.
448-453
2 Hostinato Rigore, Divisa de Leonardo, citada por Paul Valéry
em sua "Introdução ao Método de Leonardo
da Vinci", Ed. 34, 1998, p. 13
3 Idéias apontadas pelo artista e desenvolvidas em conversa
com a autora do texto.
4 Guimarães Rosa, João, "O Espelho", In,
"Primeiras Estórias", Ed. Nova Fronteira, 1988,
42ª edição, pp. 67 e 72 .
|