A improvável espessura
de tudo
Junto com a cadeira e com
o colchão, a mesa é a mobília mais óbvia
e mais urgente, índice de um espaço vivo, animado,
campo propício para o encontro com os outros, meus familiares
e meus pares. A mesa é o lugar ond eme encontro. Espaço
que convida ao ensinamento, à reflexão. Também
é meu quintal portátil, por onde espalho e me
exercito na manipulação de alguns objetos domésticos
- pentes, tesouras, retroses de linha, grampos, cigarros, giletes,
canetas, cotonetes, etc. - feitos sob a nossa medida e para
nosso usufruto. Cada qual com a sua utilidade, cada qual a exigir
uma abordagem específica; sobre a mesa todos estão
à mão. Sentado, ventre colado à borda,
apoiado nos cotovelos ou antebraços, que por certo melhor
distribuem e aliviam o nosso peso, a mesa é um plano
horizontal, plano confortável, reinvenção
do chão ou piso, agora deslocado para perto dos olhos.
O convívio com os
objetos, o fato de eles serem já quase extensões,
próteses portáteis e provisórias com as
quais empreendemos o rol de atividades com que nos ocupamos
diariamente, nos alheia do que háde insólito em
tudo isso, do que há de frágil nesse mundo que
construímos,cuja coesão depende de uma fidelidade
que só pode mesmo ser precária, uma vez que tenham
sido projetados para serem obedientes, todos osobjetos, em razão
da matéria de que são feitos, são inapreensíveis;
dentro de cada um lateja um mistério.
O trivial e o insólito,
o modo como um cabe dentro do outro, como a presença
de um redefine o outro, é o assunto de Carina Weidle.
Assuntode resto improvável pois como é possível
que o trivial possa juntar-se ao seu antípoda? Mas assim
como os trocadilho se palíndromos comprovam que a precisão
da linguagem verbal, o significado de uma palavra ou frase é
o resultado de um equilíbrio frágil, bastando
uma pequena alteração para que o edifício
esboroe sob a poeira da incompreensão, as peças
de Carina Weidle, peças decalcadas daquilo que por comodidade
chamamos de realidade, escorrem da trivialidade para o estranhamento
e vice-versa. O que é uma forma de reconhecer que seu
trabalho consiste em garantir a espessura do mundo, uma espessura
comprometida pela relação artificial que habitualmente
mantemos com ele.
Sobre uma mesa a artista
dispôs dois rolos de macarrão; marchetados sobre
ela, as imagens de objetos cotidianos. Maneira de enunciar uma
relação de causa e efeito que, em razão
da familiaridade dos objetos, ultrapassa a experiência
doméstica do achatamento do macarrão para rondar
a linguagem dos desenhos animados em que os corpos das personagens
são achatadas pela ação de algo muitíssimo
pesado que lhes cai em cima. Mas a relação não
é tão imediata assim. Examinados, os rolos semelhantes
também não obtém êxito no esmagamento
das coisas. Ao contrário, são elas- pedaços
de carne, pães - que , com seus volumes, imprimem neles
seus corpos. Troca de papéis em função
da troca de predicados: o que tem volume e deveria ser duro
(o rolo de madeira) é mole; o que era para ser plano
e ausente de condições materiais (a imagem) tem,
volume e é duro.
Na análise atenta
das imagens dos objetos cravados na mesa, o tom paródico
prossegue em chave mais erudita. As sombras que as acompanham
convidam o olhar rápido a um engano: que os objetos -
eles próprios - estejam ali. Risco mais iminente corre
o leitor deste catálogo, que, ao ver nestas páginas
a reprodução fotográfica dapeça,
sua imagem, cuidará que sobre a mesa repousam os objetos
e não suas imagens. de ilusão em ilusão,
tão logo a vista tenha desvendado o primeiro enigma,
notará que as sombras são variáveis. Vale
dizer que sobre cada paira uma luz distinta; um modo sutil de
assinalar sua presença ali, sólida, não
virtual, não reconduzida à planaridade da imagem,
o que de novo é uma ilusão, além de esclarecer
que houve uma passagem de tempo, como se cada objeto, um de
cada vez e em hora diversa, tivesse sofrido o achatamento.
Por último, revisando
o conjunto de elementos que compõe a peça tenos,em
primeiro lugar, a mesa, objeto cuja banalidade se pretendeu
combater nas linha iniciais deste texto. Em segundo lugar, os
objetos e suas sombras aplainados sobre o tampo da mesa, isto
é, indecisos entre a bidimensionalidade e a volumetria
que é como ordinariamente os encontramos. Em terceiro
lugar, sobre esses objetos e sobre a mesa, os dois rolos de
macarrão, estes sim, verazes, objetos inequívocos,
prosaicos, facilmente identificáveis. Porém, um
problema: com seus calombos contrariam aquilo que aparentam
ser, ou seja, não são mais objetos, não
funcionam como deveriam, são objetos desfuncionalizados,
formas tridimencionais apenas, pertencentes, portanto, não
ao gênero das coisas úteis, mas, provavelmente,
ao gênero artístico da escultura.
A ambiguidade, o trânsito
contínuo entre o comum e o insólito, já
se disse , é o foco da poética de Carina Weidle.
Vai daí que suas peças, à medida que cobrem
toda essa extensão possuem espessura, não se resolvem
na pela e nem se prestam a uma leitura superficial. Recusam-se
a ser meras imagens - diáfanas e flexíveis, como
convém às aparências, no sentido como os
teóricos do pós-modernismo ensinam.
Essa abertura para uma significação
complexa se ratifica em outros trabalhos como os dois volumes
brancos, cada um "L" pousado no chão. De frente,
assemelham-se a cadeiras, um tipo inconcluso de cadeira, incômodas,
posto que sem pernas e com seus assentos e encostos a denunciar
seu equilíbrio instável. A idéia de lápides
também nos ocorre, efeitode suas formas e de sua fria
brancura. Vistas por trás, ambas as peças trazem
manchas pintadas em seus "encostos", não são
manchas quaisquer, mas, precisamente machas retiradas do teste
Roschach, o famoso teste psicológico que consiste na
contemplação de machas bem determinadas e cuja
contemplação sugere, assim como a contemplação
desse trabalho de Weidle, uma ampla gama de significações.
Quando a artista se afasta
do prosaico, aparentemente o faz para afrontar o comportamento
das coisas, a física que submete suas leis a todas as
formas que estão no mundo. Este é o caso de dois
conjuntos assimétricos. No primeiro, uma forma similar
a um pirulito (haste/esfera) se relaciona, por intermédio
de um cordão de látex, a uma bolsa de diâmetro
semelhante ao seu, que flutua em espaço contíguo.
O cordão de látex tem em suas extremidades laços
que repousam sobre o topo superior de umae inferior da outra.
Acercando-sedo trabalho, vê-se que a flutuação
é alcançada por um, propositalmente, indisfarçável
fio de nylon. Desfeita a ilusão, percebe-se o enigma
não é a bola, mas sim, o cordão de látex.
A haste está em posição horizontal, em
repouso. Participa também do trabalho outro cordão
de látex que vence o espaço entre as duas formas
e através de laços enfaixa uma das extremidades
do cilindro para depois se apoiar no topo da forma em pirulito.
Aqui, o que manifesta equilíbrio improvável é
a haste.
Como se frisou, só
aparentemente a poética está imbuída de
constranger as leis da física. revestidos de cores pueris,
azul-bem-claro ou lilás-muito-pálido, os conjuntos
desviam-se de qualquer retórica grandiloquënte e,
com certa ironia, uma pitada de desdém, anulam a gravidade,
esta sim, do assunto.
Mas é em duas outras
peças, outras duas cenas, que a artista atinge o cume
na lida com imagens complexas, imagens dotadas de espessura.
Trata-se de "duas caixas", duas pinturas híbridas,
com profundidade real e não virtual. Na primeira delas,
uma sucessão de postes de ruas em pequena escala devidamente
acesos, como convém, vão desaparecendo em uma
"rua" ou "corredor" - e novamente aqui se
insinua a ambiguidade - curvo, conzento e vazio. Ruas silenciosas
são um tema recorrente na iconografia moderna, num arco
que vai de De Chirico à Kiefer, passando por Hopper e
pelo nosso Goeldi. A nostalgia do tema renova-seno revestimento
conza, na luminosidade amarelo-pálido que os postes gotejam
e no nosso próprio rosto que, ao se avizinhar da cena,
tende a prosseguir inultimente buscando o final do trabalho
que, no entanto, só vai acontecer para além da
nossa vista . A escala pictórica, com a qualo olho compraz-se
em se adaptar, não funciona aqui, com esse convite a
uma aproximação que põe a nu o tamanho
real da cena, com a iminente colisão entre a solidez
da face e da cena.
A segunda caixa corresponde
a um superlativo visual: duas figuras que levam ao parodoxismo
a idéia tão comum do cumprimento, trocam um aperto
de mão e de pernas, o que as leva a fundirem-se uma na
outra. O tom paródico comanda a feitura da peça.
A relação com os canônes da pintura clássica
traduz-se na relação fundo-figura e na pespectiva
com um ponto de fuga claramente enunciada. No entanto, as ostensiva
tridimensionalidade da cena trai esse compromisso, assim como
o peso das figuras, afundando o chão de espuma, ratifica
a idéia de que não se trata de uma imagem comum,
epidérmica, volátil, pronta para ser esquecida
tão logo tenha sido vista, mas de uma imagem espessa,
insólita e sólida, coisa entre coisas, como tudo
aquilo que háno mundo se o olharmos com atenção.
Agnaldo Farias
Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da USP
